terça-feira, 1 de novembro de 2011

FOTOGRAFIA - DIANTE DA DOR DOS OUTROS

Ser ou não ser da fotografia

O escritor francês George Bataille foi influenciado pela fotografia e pelo poder da imagem em retratar a dor dos outros

Por Luciana Cavalcanti, do Fotograficaminhamente

Ontem me vieram à cabeça duas perguntas, após uma semana repleta de discussões instigantes e leituras pertinentes à história, sociologia e antropologia — estas áreas relacionadas à fotografia. Também após encontrar bons — às vezes inúteis, felizes ou infelizes — comentários sobre a fotografia e seu uso como instrumento de ego e não de pacificação e discussão construtiva das ideias.
Para muitos, a fotografia pode ser registro do real, obra de arte, instrumento de pesquisa, recorte de um plano, de uma ideia, testemunho, objeto de fazer e fixar memória, inspiradora de conceitos, de imaginação, de contação de histórias etc. O leitor, mais que do que eu, pode atribuir várias afirmações a respeito da fotografia, sobre o que ela é.
O uso da fotografia, porém, é um fetiche — e disso não se pode escapar. Ela pode mudar comportamentos ou inspirar uma transição de pensamento importante na história de uma época ou de um grupo. Seguindo esta premissa, descubro que uma das maiores provas da motivação pela imagem fotográfica foi o escritor francês George Bataille.
A relação de Bataille com o bizarro, com o voyeur, com o inusitado, com o fetiche (e tudo isso embutido no seu pensamento sobre corpo, vida, morte, sexo e erotismo) é recorrente em sua obra. Bataille foi arquivista da Biblioteca Nacional da França. Inspirado pelo seu terapeuta, resolveu dedicar-se à temática das extravagâncias sexuais e pelo êxtase, a fim de exorcizar — segundo afirma a literatura — seus tormentos psíquicos.
Mas o que me chamou mais a atenção sobre a inspiração de Bataille foi o artigo “George Bataille: Imagens do Êxtase”, escrito pelo filósofo Luiz Augusto Contador Borges e publicado pela revista Agulha em 2001. Contador afirma a influência enorme no início da vida profissional de Bataille por um conjunto de fotografias realizadas durante um ato de esquartejamento na China Imperial, em 1905. A vítima era o suposto assassino de um príncipe.
Na execução do chinês Fou Tchou Li e seu Suplício dos Cem Pedaços, o sorriso visto em seu rosto é absurdamente intrigante. Ao documentar o ato visto por tantos espectadores, o psicólogo francês George Dumas fica atordoado com o acusado impávido diante do corte de seu próprio corpo e do prolongamento de sua condição de estar entre a vida e a morte, sendo tratado sadicamente por seus algozes.

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