Obra: Não Adianta Gritar
O facto de opiniar acerca da obra de um artista é para mim um exercício constante, integra o meu trabalho, em função disto é preciso ser actuante e não pactante. O meu encontro com o artista Sante Scaldaferri surgiu por meio de referências onde a crítica brasileira esteve presente e eu com partilhava da troca de informações(comentei a ocasião com o artista). Sempre considero o olhar um instrumento vital para a crítica, independente de textos sobre o artista.
Num primeiro contacto o que percebi era o construir quadros com figuras. Personagens que tomavam o espaço da tela até de forma inconveniente, pois as tonalidades eram fortes e via certas irreverências não casuisticas, àquelas que vem com a forma produzindo claros , escuros, transparências, além de sinuosidades que tendem a situar o barroco que o artista não consegue desvencilhar-se.
As melhores obras de Sacaldaferri para mim são estas, acredito que a maioria vinda da década de 80. Apenas linhas podem definir uma composição: o volume também integram sombras e perspectivas múltiplas. Cada material proporciona ao artista uma identidade e posso afirmar do outro continente que é na madeira ou na colagem da tela sobre ela que este artista consegue fechar seu estilo - são possibilidades expressivas que surgem como as histórias. Não consigo imaginar o vazio na obra de Sante, o azul pelo azul, o vermelho pelo vermelho e assim por diante. Suas ligações não passam pela chamada "modernidade", ou se passam serão improvisações. Acredito que tenha sido picado por influências, nada contra, mas sem o sonho e o aproximar do elemento dionisíco certamente, às relações dos corpos objectos não existirão.
Seus olhos não passeiam nesta fase, eles captam evocações que por natureza tem um começo e sua continuidade pode desenvolver projectos(algo mais conceitual). Vi suas gravuras, técnicas ligadas a sua trajectória; o fazer tendo como instrumento o computador,porém todos eles sucumbem diante da sua linguagem simples onde evocações estão presentes e são desenvolvidas numa especifica linguagem. Suas obras contém uma narrativa e é justamente esse tópico que observei em relação ao fechamento da ideia, à conclusão coerente da tarefa em questão.
No decorrer de diversos anos de estudo, nem sempre tudo me é satisfatório. Mesmo um artista inserido no circuito da arte incorre em erros. É na forma indefinida que se mescla e que não estabelece limite que o artista,baiano brasileiro, alcança sua verdadeira identidade e escreve seu nome com dignidade diferente de pressões que todos os vivos são submetidos. Analiso o sentido mais amplo do artista não desfazendo da grande valia das suas pesquisas porém aponto para seu núcleo vital para situá-lo coerentemente dentro da contemporaneidade.