quarta-feira, 18 de julho de 2012

MAIAS USAVAM BARRAGENS E RESERVATÓRIOS


Novo estudo antropológico revela que rede, na atual Guatemala, incluía barragens, reservatórios, canais de distribuição e até mecanismos de filtragem
Por Daniela Frabasile
Novos estudos sugerem que os maias tinham um sistema de abastecimento e filtragem de água mais complexo do que se imaginava. Cientistas identificaram uma grande barragem na região de Tikal, na Guatemala, parte da rede que provavelmente possibilitou o estabelecimento em uma área onde o clima é conhecido por apresentar seis meses de enchentes e seis de seca.
Tikal é uma das maiores e mais bem sucedidas entre as cidades maias, e estima-se que sua população tenha sido de 60 a 80 mil pessoas. Há pouco tempo, apesar de saberem muito sobre a cultura e modo de vida na região de Tikal, os cientistas não estavam certos sobre como os moradores da cidade gerenciavam o uso e distribuição da água.
Para sustentar um assentamento com as proporções de Tikal por quase mil anos, seria necessário um sistema complexo de coleta e uso da água, e isso foi descrito pelo antropólogo Vernon Scarborough e sua equipe em um paper publicado nessa semana na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
Há vinte anos, Scarborough começou a estudar os mapas de Tikal e teve a ideia “razoavelmente hipotética” de que os maias poderiam ter controlado a água. No estudo, ele descreve uma sucessão de barragens e reservas, além de um sistema rudimentar de filtragem da água, que usava areia de quartzo.
O fato de a fonte mais próxima de areia se encontrar a mais de 30 quilômetros de distância sugere que os maias tinham a consciência de que, para usar a água armazenada, era preciso mantê-la limpa. Caixas contendo a areia de quartzo eram colocadas na entrada de alguns reservatórios. A água armazenada nos reservatórios sem o sistema de filtragem provavelmente era usada na agricultura.
Os reservatórios eram feitos nas pedreiras usando os buracos deixados onde haviam retirado imensas pedras para a construção de templos. Situavam-se em diferentes níveis, para que pudessem direcionar a água para qualquer lugar que fosse necessário na cidade. Além disso, com a preocupação de que toda a água fosse levada aos reservatórios, as fendas e rachaduras nas calçadas e construções eram preenchidas com gesso, com a finalidade, segundo os autores do paper, de levar toda a água da chuva para os reservatórios.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

AS CIDADES REBELDES DE DAVID HARVEY


Um grande teórico das metrópoles contemporâneas contesta hipóteses conformistas e vê nestes centros, colonizados pelo capital, laboratórios de outra sociedade
Entrevista a John Brissenden e Ed Lewis, do New Lef Project Left Project | Tradução:Daniela Frabasile e Laís Bellini
Acaba de sair (por enquanto, em inglês), um livro indispensável para quem quer debater crise do capitalismo, degradação social e ambiental das cidades e busca de alternativas. Numa obra curta (206 páginas), intitulada “Cidades Rebeldes”, o geógrafo, urbanista e antropólogo David Harvey sustenta pelo menos três ideias polêmicas e indispensáveis, num tempo de crise financeira, ataque aos direitos sociais, risco de desastre ambiental e… rebeliões contra o sistema. Elas estão expostas em detalhes em 
entrevista que Harvey concedeu a John Brissenden e Ed 


Lewis, do excelente site britânico New Left Project.
A primeira provocação do geógrafo – que é também um dos grandes estudiosos contemporâneos de “O Capital”, de Karl Marx (veja aárea especialmente dedicada ao tema, em seu site) – diz respeito ao papel das grandes metrópoles. Harvey discorda de dois tipos de pessimismo. Estes grandes centros para onde fluem as multidões de todo o mundo no século 21, diz ele, são bem mais que templos da desigualdade, da vida automatizada e cinzenta, da devastação da natureza.
É a elas que afluem – e lá que se articulam — as multidões às quais o capital já não oferece alternativas. Esta gente estabelece novas formas de sociabilidade, identidade e valores. É nas metrópoles que aparecem a coesão reivindicante das periferias; novos movimentos como Occupy; as fábricas recuperadas por trabalhadores em países como a Argentina; as famílias que fogem ao padrão nuclear-heterossexual-monogâmico. Nestas cidades, portanto, concentram-se tanto as energias do capital quanto as melhores possibilidades de superá-lo. Elas não são túmulos, mas arenas. Aí se dá o choque principal entre dois projetos para a humanidade.
A segunda hipótese de Harvey diz respeito à própria (re)construção de um projeto pós-capitalista. O autor de Cidades Rebeldes está empenhado em identificar e compreender formas de organização social distintas das previstas por um marxismo mais tradicional. Ele reconhece: ao menos no Ocidente, enxergar na a classe operária fabril o grande sujeito da transformação social equivale quase a um delírio. É preciso buscar sentidos rebeldes nas lutas por direitos sociais empreendidas por um leque muito mais amplo de grupos e movimentos. Não cabe nostalgia em relação às batalhas dos séculos passados: é hora de tecer redes entres os que buscam de muitas maneiras, nas cidades, construir formas de vida além dos limites do capital.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

UM RIGOLETTO COM POUCO BRILHO ABRE TEMPORADA DE 2012- THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO


          UM RIGOLETTO COM POUCO BRILHO
                                                              
                                       Vicente de Percia                              

   Aberta a temporada de ópera de 2012 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O público compareceu em massa, esperançoso em assistir um bom espetáculo, visto que as últimas montagens ressaltando alguns interpretes e vozes como a da soprano argentina Paula Almenares em Lucia di Lammeermor de Donizetti em 2011. Infelizmente “ Ricoletto” estava muito aquém dos espetáculos operísticos já apresentados nesse Theatro, incluindo a obra em foco.
Verdi sempre exige sempre boas vozes e timbres específicos e “ Rigoletto” não foge a regra. Ópera em três atos, libreto de Francesco Naria Piave alicerçado em “Le Rois s’ Amuse de Victor Hugo. Estreia no Teatro de La Fenice , Veneza em 11 de Março de 1853. As informações é que ela foi composta em apenas 40 dias em plena jovialidade de Giuseppe Verdi(1813/1901).

   O Bufão (Rigoletto) é personagem centralizador dessa ópera o que não coloca em segundo plano os demais personagens. O barítono italiano Roberto Frontali apesar de ter uma boa voz não convenceu no papel principal, faltou- lhe presença, dramaturgia, enfim suporte para impor o grande canalha e sua complexidade.
Fernando Portari surpreendeu, porém não imprimiu a altivez, o domínio e a destreza necessária ao Duque de Mântua. Em  La Donna e móbile” no terceiro  ato na estreia não foi convincente. Ficou um querer mais. 
Artemisa Repa ( Gilda) excelente postura dramática, bela voz. Faltou um entrosamento maior com a personalidade da personagem.
Nessa montagem o cenário não passou de razoável e a decisão de jogar imagens no cenário foi desastrosa e o ambiente escuro em nada contribuiu para o drama. Sem dúvida apesar de não ser o desejado melhor que os chamados “cenários contemporâneos”.
A direção musical do maestro Oswaldo Ferreira Tudo não foi feliz, a obra estava solta sem vigor de uma história que requer o domínio do drama.   

terça-feira, 3 de julho de 2012

CRÍTICA DA ÓPERA " O ELIXIR DO AMOR" NO TEATRO SÃO PEDRO, SÃO PAULO, BRASIL, 2012



Sucesso grande na estreia de “L’Elisir d’Amore” em São Paulo, dia 26 de Junho.

O acerto da direção artística  e do Theatro São Pedro na escolha de “L’Elisir d’Amore”, muito bem focado em todos os seus aspectos cênicos e musicais, revela aqui conhecimento de causa, do ” mettier” de seus diretores, fazendo com que o público aflua feliz ao teatro,  com a lotação máxima em suas récitas até o dia 7 de Julho.
Gaetano Donizetti é o compositor do “Elixir do Amor”, estreada a 12 de maio de 1832, há 180 anos completos, no Teatro della Canobbiana, Milão, com libreto de Felice Romani e, como ópera cômica, é uma das mais populares da ópera romântica italiana. Do mesmo compositor são Il Campanello (1836), Lucrezia Borgia (1833), Gemma di Vergy (1834), Lucia di Lammermoor (1835), Roberto Devereux (1837) , A Filha do Regimento (1840), La Favorita(1840) e Don Pasquale (1843) englobando os gêneros dramático, lírico e cômico-engenhoso com muita propriedade e sucesso.
“L’Elisir d’Amore”, foi a escolhida para abrir a temporada lírica do Theatro São Pedro, na noite 26/6/2012 com muito sucesso de público. Um espetáculo bem cuidado nos figurinos, transpostos para uma época mais moderna, talvez dos anos de 1950, na aldeia em que se passa a história,  em tons neutros e de boa combinação e com único cenário de feliz concepção de Sílvio Galvão,  ambientando plenamente e com satisfação o âmbito da ópera enfocada, com o detalhe da fidelidade e a convicção de que realmente se trata daquilo que se vai ver cenicamente. Parabéns aos responsáveis por essa ambientação.
Walter Neiva, experiente homem de teatro,  fez a sua parte conduzindo nos jogos cênicos todos os figurantes, coro e solistas de maneira suficiente e muito bem cumprida da parte teatral do espetáculo, com propriedade especial para os seus intérpretes principais.
Sébastien Guèze, como Nemorino é um tenor lírico-ligeiro apropriado para esse personagem, voz conduzida em boa escola, com a coloratura necessária e timbre agradável, somado a domínio da cena com muita naturalidade de desempenho. Cantou  “Uma furtiva lagrima”, essa adorável romanza com sutileza e musicalidade, muito aplaudido ao seu final, como também no dueto com Adina “Esulti pur la barbara per poco alle mie pene”.
Gabriella Pace, a Adina, para a qual Donizetti escreveu a um soprano lírico “Leggero”,  não é a cantora ideal para esse personagem. Soprano lírico de timbre penetrante, porém estridulante acentuado, muitas vezes deixa a desejar nesse que é um papel tão gracioso e apimentado, com sonoridades ásperas e rígidas por demais. Uma voz com maior agilidade nas coloraturas diversas, em que são peculiares nesta ópera, acompanharia bem melhor as passagens, (ornamentos e apogiaturas)  com os andamentos da orquestra que não vacilou em nenhum instante nas mãos de Emiliano Patarra. De seu desempenho cênico houve boa dose de colaboração e eficiência.
Sebastião Teixeira, barítono fez um Belcore impecável cênico e musical,  fruto de sua experiência de palco, adquirida nas últimas décadas. A Gianetta de Thaiana Roversotambém colaborou para o êxito do espetáculo com musicalidade e apreço.
O charlatão Dottore Dulcamara pode dominar o espetáculo quando bem defendido. Enzo Dara, Domenico Trimarchi, Silvano Pagliughi são exemplos de grandes performances deste baixo buffo na história da ópera. Aqui, Saulo Javan defendeu o dottore. Possui um bonito timbre de baixo-barítono, todavia sua pequena extensão vocal  dificulta a emissão na região mais aguda,  o que o faz desafinar frequentemente nas passagens mais agudas. Na ária buffa “Udite, udite, o rustici”, tanto quanto nos duetos com Nemorino “Obbbligato!…” e no outro com Adina “Quanto amore”, ficam evidenciadas essas dificuldades por ele enfrentadas, contudo, seu trabalho cênico eficaz, convence plenamente o público que o brinda, aplaudindo-o calorosamente ao final de suas intervenções.
À saída da sala de espetáculos uma surpresa ainda nos esperava: uma lembrança de bem-casados de Nemorino e Adina entregue ao público,  num ato de delicadeza e bom gosto da direção do Theatro São Pedro, que está pois de Parabéns pelo trabalho apresentado, quer pela fidelidade,  limpidez e qualidade artística do espetáculo
Marco Antônio Seta, em 27 de Junho de 2012.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

OCUPAR VAZIOS UMA DAS PROPOSTAS DA BIENAL DE BERLIM DE 2012 - O EVENTO NÃO ATINGE SEUS OBJETIVOS E MEDIANTE OBRAS "CONCEITUAIS" TORNA-SE MONÓTONA E EVASIVA


O artista polonês Lukasz Surowiec, por exemplo, mandou plantar em Berlim, no segundo semestre de 2011, bétulas vindas dos arredores do ex-campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. As árvores foram plantadas em parques, pátios de escolas e em lugares que têm uma ligação direta com o Holocausto.
A proposta de Surowiec é manter viva a lembrança dos crimes atrozes do nazismo, além de resgatar um projeto anterior: a obra de arte 7.000 Carvalhos, de Joseph Beuys, que também usa a paisagem natural, tendo sido apresentada ao público em 1982 na documenta 7. No decorrer de muitos anos e com o auxílio de muitos ajudantes, Beuys plantou carvalhos em diversos locais de Kassel, a cidade-sede da documenta: uma intervenção artística e ambiental no espaço urbano, que reage ao processo de urbanização descontrolada.
Arte eficaz
A obra de Beuys se tornou há muito parte integrante da cidade, tendo modificado a imagem dela, além de incitar discussões constantes entre os moradores. A incompreensão inicial com relação ao projeto foi se esvaindo a cada nova árvore plantada, fazendo concluir que a arte pode ser crítica, útil e também política. Além de poder provocar, gerar reflexão, mudar o pensamento e, desta forma, modificar imperceptivelmente a realidade.
Os efeitos da arte fizeram-se notar de diversas maneiras no decorrer dos séculos, embora uma postura explicitamente crítica só tenha passado a existir de fato depois da Revolução Francesa. Até então, a arte tendia à idealização, resgatando motivos, por exemplo, da Bíblia, da vida na corte e da burguesia abastada. Só depois é que os aspectos omitidos da vida e da realidade passaram a ser tratados pelos artistas. Foi quando eles começaram a apresentar imagens nunca antes vistas.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

VOLTA " O PANELAÇO" A INSATISFAÇÃO E INTRANQUILIDADE DOS ARGENTINOS



Monica Yanakiew 
Os argentinos voltaram a protestar com panelas pela primeira vez desde 2008. Os MORADORES dos bairros mais nobres da cidade de Buenos Aires convocaram um panelaço nesta quinta-feira à noite (31), contra a corrupção, a insegurança e as restrições à compra de dólares. Foi o primeiro protesto contra o governo, desde que a presidenta Cristina Kirchner foi reeleita, em outubro passado, com 54% dos votos.
Também na quinta-feira (31), os ruralistas da província de Buenos Aires (que concentra um terço do Produto Interno Bruto e da população do pais) decretaram uma greve entre os dias 2 e 8 de junho. O protesto é contra o aumento de impostos à propriedade rural, aprovado num ano em que os agricultores estão sofrendo os efeitos da seca, que afetou a produção de soja.
“Eu compro dólares para me proteger da inflação, que o governo diz que é de 10% ao ano, mas que todos nós sabemos que está mais próxima dos 30%”, disse a contadora Soledad Nanclares, enquanto batia panelas no balcão de seu apartamento, no bairro de Palermo. “Acho que numa democracia todos temos o direito de fazer o que queremos com o dinheiro que ganhamos trabalhando de forma legal. Se o governo quer acabar com a cultura de poupar em dólar, os funcionários [públicos] deveriam ser os primeiros a dar o exemplo”.
O governo argentino começou a controlar as operações de câmbio para evitar a fuga de divisas do pais, que, em 2011, foi US$ 11 bilhões. Uma medida, de novembro passado, obriga os argentinos que querem comprar dólares, euros, reais ou qualquer moeda estrangeira a pedir autorização prévia à Afip (Receita Federal argentina). Os argentinos tem que provar que tem suficientes pesos declarados para realizar a operação de câmbio.
Duas outras medidas restringiram ainda mais a compra de moeda estrangeira. O governo proibiu o uso de cartões de débito de contas em pesos argentinos para retirar divisas no exterior e, em maio, impôs restrições à compra de divisas para quem viajar ao exterior. Pelas novas normas, quem quiser comprar moeda estrangeira ao câmbio oficial tem que informar à Afip para onde vai, por quanto tempo e por qual motivo.
O senador Aníbal Fernandez, que foi chefe de gabinete da presidenta Cristina Kirchner, defendeu as restrições, dizendo os argentinos deveriam começar a pensar em pesos argentinos. Há pelo menos quatro décadas, os argentinos pensam em dólares: vendem e alugam imóveis e poupam em moeda norte-americana. Mas em entrevista, o senador admitiu que ele também poupa em dólares: tem US$ 24 mil guardados porque, segundo ele, não quer perder tempo investindo em prazos fixos, que precisam ser renovados.

DILEMAS DE IZQUERDA MARXIXTA


BY: ABÍLIO BORÓN
Al igual que Hamlet, la izquierda argentina se pasea incansablemente por los confines de la oposición preguntándose las razones por las cuales no logra constituirse como una efectiva alternativa de gobierno. Pero esta imagen es, en realidad, engañosa, porque no hay un errante príncipe Hamlet, sino dos. El primero –que representa a una minoría dentro de la izquierda– se interroga angustiosamente acerca del significado e impacto de los cambios experimentados en fechas recientes por el capitalismo argentino una de cuyas muchas consecuencias ha sido la fragmentación y desorganización del universo popular y su subordinación a las políticas clientelares desarrolladas desde el Estado. Esto, además, tuvo lugar en un período como el que se abriera luego de la crisis de la Convertibilidad y en el cual se registraron muy elevadas tasas de crecimiento económico las que, sin embargo, no lograron regresar los indicadores de la pobreza a los niveles existentes al período anterior a la crisis. Hubo una mejoría, sin duda, en relación al punto más candente de la crisis (finales del 2001 y buena parte del 2002), en la cual los indicadores de pobreza y desigualdad se dispararon hasta niveles sin precedentes en la historia nacional, cercanos a los que caracterizan al África Subsahariana. Pero si bien la recomposición capitalista gestionada primero por el gobierno de Eduardo Duhalde y su Ministro de Economía Roberto Lavagna y continuada luego, en parte con el mismo ministro, en la primera mitad del mandato de Néstor Kirchner, pudo garantizar una rápida recuperación del crecimiento económico los resultados en materia de redistribución de ingresos fueron, en el mejor de los casos, modestos.
 
A diez años de iniciado ese proceso la pobreza, sigue afectando, según cálculos de diversas fuentes (gobiernos provinciales administrados por el kirchnerismo, consultoras privadas, la Universidad Católica Argentina, etcétera) aproximadamente a la cuarta parte de la población argentina. Las cifras oficiales del Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC), intervenido por el gobierno nacional y carente por completo de credibilidad, anuncian en cambio, una proporción de personas viviendo debajo de la línea de la pobreza inferior al diez por ciento, dato éste que no es tomado seriamente siquiera por los sindicatos afines al kirchnerismo a la hora de negociar sus convenios colectivos con las distintas patronales.
 
La paradoja que atribula a este primer Hamlet de la izquierda es que bajo estas condiciones, habiéndose demostrado la incapacidad de la economía capitalista de redistribuir aún en un contexto de elevado crecimiento económico durante más de ocho años, las capas y sectores populares no consideran a la izquierda como una alternativa de gobierno capaz de construir una sociedad mejor.
 
El otro Hamlet, representativo de una opinión mayoritaria en el seno de la izquierda, gusta vestirse con los atuendos del Dr. Pangloss y pensar, como el personaje incurablemente optimista de Voltaire, que tarde o temprano la "verdad de la revolución" madurará en el seno del proletariado y que no hay nada que cambiar. La propia irrelevancia política y su falta de gravitación electoral y social así como las complejas mediaciones de la coyuntura no hacen mella en su fe en la victoria final. Para esta concepción sectaria, la tragedia de una izquierda ausente nada tiene que ver con las renovadas capacidades de desarticulación de la protesta social exhibida por el capitalismo contemporáneo, su eficacia para co-optar liderazgos contestatarios, el poderío de su industria cultural para manipular conciencias amén de las debilidades de sus propuestas, sus formas autoritarias de organización, lo arcaico de sus discursos hacia la sociedad o su desconexión con las urgencias sociales de nuestro tiempo. "Autocrítica" es una palabra que no existe en el diccionario de los fundamentalistas de izquierda; "rectificar" es otro verbo desconocido en su lenguaje. En su versión más rudimentaria esta actitud reposa sobre un axioma indiscutible: si la revolución no se consumó fue porque una cierta dirigencia de izquierda traicionó al mandato popular.