sexta-feira, 26 de julho de 2013

CRISE DE IDENTIDADE.

O indivíduo está cada vez está mais imerso na crise de  identidade, facilmente detectada em um processo confuso e plural de chamamento que o deixa disperso e o torna frágil mediante  os seus objetivos. Há um amplo deslocamento e  perda de  metas  a serem traçadas  pelo indivíduo "moderno". Por mais que se queira localizar as causas dessas inconstâncias e buscas que davam ao indivíduo uma certa sensação de continuidade em um mundo  centrado, as ações se perdem. O Homem e o mundo estão em crise. Passam a pertencer e a constituir  algo solto e dilacerado nas suas ideias e montagens.
 O final do século XX  agrega o descentramento e de certa forma se opõe às raízes do passado, ou as informações culturais abordadas na sua plenitude que, a seu modo, forneciam ao ser diálogos e direcionamentos sociais.
 A identidade não existe, está em crise e se torna um problema não resolvido e, assim, é vista e manipulada como algo "confortável" de entendimento pelo próprio indivíduo pós-moderno. Ele busca a todo custo, na sua pseudo- identidade explicar sem conseguir o seu descentramento - 
uma situação de sua própria localização social. Essa  postura é uma intenção de justificar  um novo segmento cultural para o indivíduo se fortalecer em uma forma de ancoragem em um universo sem diretrizes.
Vicente de Percia
Artes Visuais - Bow Art International

segunda-feira, 15 de julho de 2013

OS INTERMINÁVEIS CONCEITOS DE ARTE

Por Vicente de Percia
Os inúmeros conceitos da arte dariam para preencher ilimitadas enciclopédias. É comum vê-los em apresentações, catálogos, ensaios, palestras, citações de autores com seus pensamentos ávidos em situar a tarefa artística. Alguns opinam que a ideia é o elo de interseção na criação da obra, outros se posicionam que o perfil espontâneo ou plástico não é o meio certo de fazer a arte e por aí vai...
De quê modo se forma um artista atualmente? Como e qual é a sua trajetória para criar uma obra de arte? Uma série de conceitos surgem, entre eles: o fator histórico. Há artistas que vivenciaram profundas crises políticas sociais relevantes e se aproveitaram delas para criar. Os valores éticos e econômicos também são suportes e também são usados para legitimar a arte.
No início do séc.XX os diferentes meios materiais não convencionais foram utilizados para afirmar o surgimento de novas tendências e propiciar um distanciamento mais "realista" em relação ao seu tempo.
Estávamos diante da inovação atrelada ao deslanche das civilizações industriais, em franco crescimento tecnológico e o incentivo de possibilidades de ir de encontro ao combate do velho.
A experimentação nas artes plásticas não está tão distante da incessante busca da "modernidade" onde o novo produto a ser lançado deve propiciar benefícios em vários setores, cobrindo item inerente ao prazer do Homem e ao seu consumo.
Esse mesmo esquema é visto em múltiplas tarefas e setores artísticos tidos como as mais viscerais ou engajadas: a análise pode ser descrita para que o espectador possa ser direcionado e compreender o objetivo da obra do artista e alertar para os elementos e as formas presente na obra o que revelará a proposta do artista e desvendará o hermetismo da obra. .
Há segmentos críticos que valorizam essa complexidade acima citada, considerando o afastamento do olhar e a aproximação do texto ( esse se tornando mais importante,por vezes que a obra) um vínculo que procura  acenar para o expectador para que ele possa compreender ou pelo menos se aproximar do que está vendo. São na maioria conceitos filosóficos e como tal podem ser aceitos ou não.
Há posicionamentos que afirmam um estranhamento na arte em relação a sua integração com a sociedade. A arte dentro dessa reflexão estaria longe de poder interagir completamente com a sociedade, com o senso de observação espontâneo e coletivo. A definição de povo nos vários ciclos históricos; o trabalho envolto na produção; a divisão de classes; a vida política e social são sinalizações que a filosofia da arte estuda e, portanto meios para conhecê-la sem superficialidade.
Entre as correntes contemporâneas há os que afirmam que é impossível ser neutro na arte contemporânea. A trajetória da produção atual sem dúvida está ligada a "esquemas" mais preocupados com a demanda do que com o conteúdo. O capitalismo voraz põe suas garras sobre a legitimação da "obra de arte" e cada vez mais os seus conceitos não estão voltados para um embasamento que permita avaliar com coerência a situação real da criação artística. 
A reflexão da crítica de arte adota uma parcialidade, não é um defeito, pois desde a sua existência falar de arte é também falar do artista, do gosto pessoal, da época, etc.. Dessa forma não há como se obter uma exclusão total da crítica para se distanciar dos erros e legitimar ou não uma obra de arte.

sábado, 4 de maio de 2013

CRÍTICA DA ÓPERA AIDA DE VERDI - TEMPORADA 2013, THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO

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Escrito por Marco Antônio Seta em 21 abr 2013 
Na atual produção iniciada a 20 de abril, a protagonista da ópera foi realmente a princesa Amneris e não a Aída como dita o libreto de Ghislanzoni.
Grande artistas da cena lírica internacional representaram Aida newste teatro. Elisabetta Barbato e Ebe Stignani em 1947/49; Renata Tebaldi e Elena Nicolai em 1951; Constantina Araújo e Mario Del Monaco em 1954; Antonieta Stella e Pier Miranda Ferraro em 1956 e Aprile Millo e Maria Luisa Nave em 1986. Complementaram esses artistas Giulio Neri, Beniamino Gigli, Fedora Barbieri, Mario Filippeschi, Enzo Mascherini, Boris Christoff, Maria Henriques, Gian Giacomo Guelfi, Marta Rose, Ida Miccolis,  Fernando Teixeira, Bruno Sebastian, Dimiter Petkow e Gianfranco Cecchéle. Regentes: Oliviero de Fabritis, Enzo Tieri, Antonino Votto, Franco Ghione, Ottávio Marini, Edoardo de Guarnieri, Santiago Guerra e Isaac Karabtchevsky atuaram como maestros concertattores e diretores de orquestra.
A orquestra sinfônica começou tímida num andamento extremamente ralentado, arrastando exageradamente, mas melhorou aos poucos no pulso de seu competente regente. A majestosa música composta por G. Verdi, o gigante da ópera italiana, especialmente nos dois primeiros atos, e sobretudo no que se refere à música instrumental, coral e também para ballet, nos concertatos do 2º quadro do ato II, foram aqui dignamente interpretados sob a batuta de Isaac Karabtchevsky.
Radamés, jovem capitão egípcio, apaixona-se por Aída, escrava etíope que serve a Amneris, filha do faraó. Não sabe que Aída tem sangue real e que Amneris está apaixonada por ele. Quando os etíopes avançam sobre o Egito, Radamés é nomeado comandante dos exércitos, para angústia de Aída, que retribui o seu amor. Vitorioso, Radamés traz entre os prisioneiros, Amonasro, rei da Etiópia e pai de Aída. Por amor a Aída, Radamés consegue do faraó clemência para os prisioneiros, o que leva ao paroxismo o ciúme de Amneris, consciente de que Aída é a sua rival. Um ardil de Amonasro faz com que Radamés revele a Aída segredos que permitirão um novo ataque dos etíopes. Descobertos por Amneris, Radamés é julgado e condenado à morte, enquanto Amneris mergulha em sentimentos contraditórios.
O texto do egiptólogo Eugène Mariette que sugeriu ao compositor a trama de “Aída” cujo libretista é Antonio Ghislanzoni, nos apresenta o triângulo amoroso contrapondo-se ao templo sagrado de Vulcano em Memphis, do qual a figura central é o sumo sacerdote Ramfis, interpretado por Sávio Sperândio, baixo (de Goiás), embora não da classe artística de Cesare Siepi, Giulio Neri, Giorgio Tozzi, Nino Meneghetti, Nicolai Ghiaurov, Samuel Ramey, Paata Burcholavsky entre outras celebridades. Baixo cantante atuante na cena lírica nacional, deu uma razoável interpretação iniciada com palidez, especialmente na cena do templo de Memphis “Nume custode vincide”, onde estático e inexpressivo não emocionou a plateia ainda que coadjuvado pelo coro e Radamés. Depois aqueceu-se com o andamento da ópera, acertando mais no IV ato.
Os sacerdotes (barítonos e baixos) do coro realizaram correta leitura da parte que lhes cabe (cena do julgamento); nível de excelência atingiram os sopranos e mezzos, particularmente nos conjuntos de todo o ato II.
Iacov Hillel apresentou-nos uma marcação cênica nada criativa, limitando-se ao convencional, inclusive no tocante às cena de massa bem como aos personagens principais. Esperávamos mais desse artista experiente já no teatro lírico brasileiro. Os cenários de Hélio Eichbauer se inspiram em formas geométricas, abundantes na arquitetura antiga egípcia aqui evocada numa concepção mais contemporânea; e as projeções sobre o cenário, algumas em 3-D, pela videasta Laís Rodrigues, é outro trunfo, embelezando a arte visual, concretizando assim um bonito conjunto cenográfico.
Aída, a escrava etíope exprime seus sentimentos na ária do Nilo com o coração angustiado à espera de Radamés: nessa ária Fiorenza Cedolins deveria demonstrar todas as suas qualidades vocais: extensão, controle técnico, agudos claros e bem emitidos (vai até o dó 5 natural). A cantora italiana, soprano lírico spinto de bonito timbre e de escola de canto irregular, cujo repertório deveria se limitar à Mimi de La Bohème, Micaela, Nedda de “Pagliacci”, ou outros similares, não conseguiu vencer as dificuldades desse imenso personagem verdiano. A voz não corresponde em volume para os concertatos do ato II, nos duetos com Amonasro e Radamés é bastante irregular nos andamentos e nas árias principais, onde precisa ser excelente, tenta ela compensar com pianíssimos, todavia falham ou não se emitem, o que ocorrera em sua ária de importância máxima, quando emudeceu o dó natural: “Oh! Patria mia, mai più ti rivedrò”. No dueto “O terra, addio” foi apenas regular; ajudada pelos seus companheiros de cena (Pelizzari e Smirnova). A sofrida “Aída” de F. Cedolins decepcionou o currículum que a precedeu.
Rubens Pelizzari também se distanciou do óbvio: a cena é primária em suas aparições no palco e a voz, de tenor spinto, sempre calante na afinação. Acostumado a cantar em pequenos teatros da Itália e países vizinhos, apavorou-se com a grandiosidade do nosso teatro do Rio de Janeiro e, também pelo seu próprio papel que havia de desencumbir-se; no ato III já apontava a exaustão em seus duetos com Aída e Amonasro; sua ária “Celeste Aída” limitou-se ao linear.
Amneris, a filha do rei do Egito, foi aqui interpretada pelo mezzo soprano russo Anna Smirnova, que em sua primeira aparição como a princesa no Rio de Janeiro, brilhou rotundamente. Na diversidade de seus sentimentos, mergulhou em contradições: o seu orgulho, o auge de ciúme, a satisfação da vingança e a dor descomunal de ter contribuído para a condenação de Radamés. Some-se a isso uma voz potente, enorme e aquecida desde sua primeira entrada na cena II do 1º ato. Após demonstrar a beleza e a força de seu timbre nos dois primeiros atos, exacerbou no IV ato, dominando por completo a cena do julgamento, precedida pelo dueto “Gia i sacerdoti adunansi” emancipando-se bravamente na frase final “Empira razza! Anatema su voi !” Foi imensamente ovacionada. Aos paulistanos e cariocas presentes no Municipal que viram esta  brava Amneris, certamente recordaram-se da insuperável interpretação de Marta Rose, cantora chilena de nível internacional que nos visitou em 1957 aqui no Rio, e após no Teatro Municipal de São Paulo em 1967, novamente em 1968 e 1970 pela última aparição no Brasil. Inesquecíveis essas Amneris.
Amonasro, o rei etíope cativo, pai de Aída, a cargo de Lício Bruno fica muito distante daqueles que pisaram neste célebre palco carioca. Rubens de Falcchi, Paolo Silveri, Enzo Mascherini, Lourival Braga, e o maior de todos eles: Gian Giacomo Guelfi. Sem falar de Fernando Teixeira, em 1986/1988,  esse glorioso barítono carioca, que projetou-se em teatros verdadeiramente importantes aí pelo mundo afora. Lembrar-se de GGGuelfi em sua entrada em cena: “Suo padre!…” no palco do Theatro Municipal de São Paulo (1970) é coisa de cinema ! Figuravam a seu lado:  Bruno Prevedi, Marta Rose, Rita Orlandi Malaspina e seu marido Maximiliano Malaspina com Mario Rinaudo (Ramfis). Nada a acrescentar nesta produção carioca.
O Faraó de Carlos Eduardo Bastos Marcos (baixo cantante, mas requer-se um baixo profundo), limitou-se ao satisfatório num conjunto heterogêneo; o mensageiro deRicardo Tuttmann é bastante expressivo e muito musical e a sacerdotiza deBianchini, muito fraca,  considerando-se que sua voz revelou-se branca demais para a tão linda invocação à Isis. Bailados colaboraram com eficiência sobretudo na dança das sacerdotisas e da cena triunfal com um homogêneo conjunto coreográfico. ParabénsJoão Wlamir, e Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro.

sexta-feira, 29 de março de 2013

CULTURA DIGITAL, JANELA PARA A PÓS - MASSIFICAÇÃO



Pela primeira vez na história, é possível superar indivíduo e homem-massa, construindo o comum. Seria trágico desperdiçar tal oportunidade
Por Jéferson Assumção* | Imagem: Bansky
MAIS:
Este texto é o posfácio de Homem-massa: a filosofia de Ortega y Gasset e sua crítica à cultura massificada”, livro de Jéferson Assumção.
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Em 2020, o mundo deverá ter mais de 24 bilhões de dispositivos conectados em rede, como apontam pesquisas da empresa Machina Research, especializada no tema. Com isso, haverá uma média de três aparelhos conectados por pessoa, incluindo celulares, eletrodomésticos, tablets e até computadores. Eles poderão ser utilizados heteronomamente. Ou de modo um pouco mais autônomo. Se de maneira heterônoma, continuarão gerando massificação, mesmo que venha a ser um tipo customizado de massificação. Se de forma mais autônoma, poderemos ver a emergência de indivíduos-redes desmassificados?
Certamente que os atuais avanços da era digital podem, se bem aproveitados, gerar um ambiente menos favorável à homogeneização cultural e à vigência do comportamento do que Ortega chamou de homem-massa – este produto da técnica da era industrial que se desenvolveu na virada do século XIX para o século XX. Agora, em pleno século XXI, mais uma vez o desenvolvimento técnico vem trazer questões importantes para se pensar sobre como o ser humano se comporta em relação à tecnologia que ele mesmo desenvolve.
Diferentemente do homem-massa delineado por Ortega na década de 30 do século XX, os seres humanos atuais, do ponto de vista tecnológico, têm abundantes condições de viver numa multidimensionalidade da cultura. Há mais acesso à diversidade cultural e às condições de se fazer as recombinações de elementos, processos e visões de mundo, muito mais do que em qualquer outro momento da humanidade. Portanto, em se tratando de cultura, essa palavra cujo sentido em muito tem a ver com modos de fazer, de técnicas e interação de indivíduos entre si e destes com a natureza, uma cultura ligada ao ambiente digital não pode ser desconsiderada numa leitura mais plena de nosso tempo.
A cultura digital e seus rebatimentos estéticos (diversidade cultural e recombinações), éticos (ética do compartilhamento) e políticos (ação cidadã em rede, descentralizada e com menos mediação de estruturas verticais) são, em termos mais amplos, um importante tema de nuestro tiempo. Não se trata mais da perda da aura da arte na época de sua reprodutibilidade técnica – como assinalava Walter Benjamin – mas, devido à desmaterialização dos suportes ocorrida nas últimas décadas, trata-se da perda da aura da obra de arte na época de sua infinita reprodutibilidade técnica. Há mais condições de heterogeneidade, diversidade, inter e transculturalidade, portanto mais condições (e responsabilidades) dos sujeitos contemporâneos fazerem a si próprios.
Foram décadas de unidimensionalidade (O homem unidimensional, de Herbert Marcuse). Nelas, a sociedade industrial impunha quase que uma única dimensão da vida: uma racionalidade “tecnológica” (físico-matemática, para Ortega) de mão única. Ela dominava e oprimia por meio de aparatos de controle das consciências humanas, meios de entretenimento e comunicação de massa que hiperdimensionavam em todos a pulsão de vida (sexo, jogos, entretenimento) e a pulsão de morte (violência urbana e sensação de insegurança extrema). O resultado eram homens e mulheres autômatos, incapazes de se opor ao sistema, pois vivendo a mecânica do conformismo, dentro das benesses do conforto.
Agora, com as novas condições, não há também mais desculpas: o homem-massa, paciente e agente de sua condição de massa, invertebrado habitante do ambiente técnico-consumista do século XX, dominado pelo mercado, por partidos, sindicatos e estados ortopédicos, de cima para baixo, não tem mais a quem jogar a responsabilidade. Ele pode recuperar sua autenticidade, como em nenhum outro momento da Humanidade. A técnica do século XIX engendrava o homem-massa, dizia Ortega. A técnica do século XXI pode engendrar o pós-homem-massa. Se para os frankfurtianos e para a teoria crítica, o comportamento heterônomo era inculcado pela indústria cultural nas cabeças das pessoas, hoje este elemento se fragmenta. Desaparecem dia a dia os mediadores e as indústrias de fabricação de suportes materiais da arte e, de todo lado, movimentos de indivíduos em rede trazem as visões da periferia para o centro do debate sobre cultura. Com tudo isso, é possível dizer que estão dadas as condições técnicas para a superação tanto do homem massificado quanto do homem atomizado, fechado em si, solipsista, consumista individualizado e não participante de sua circunstância?
II.
Pós-homens-massa Aqui e ali já se notam as estratégias das empresas na internet para gerar comportamentos massivos através de ambientes pós-massivos. São espécies de homens- massa customizados, a parecerem indivíduos autônomos, mas no fundo não só seguem como aprofundam os padrões de consumo da era industrial. Um perigo é que, com as novas tecnologias de produção pós-industriais, a produção capitalista atual sabe que não precisa mais fazer nada em série, nem seres humanos em série. Hoje, trabalhando com a tática de criar – eles dizem “descobrir” – nichos de mercado, ela amplia seu poder ao fazer homens-massa customizados, com aparência de autônomos. As roupas e os cabelos parecem diferentes entre si, mas este tipo de homem-massa customizado segue o mesmo por dentro: inautêntico e diminuído ao elemento fundamental do consumidor, em vez de responsável por fazer sua própria vida. Mesmo no ambiente pós-massivo, este tipo massificado pelo mercado continua massa, pois segue sendo educado pelo mercado e pelos usos da sociedade desvitalizada pelo pragmatismo utilitarista, materialista e agora pela internet para se comportar como massa, invertebrada e vaga.
Em sentido contrário, nunca se teve tantas condições de se hackear, fazer truques, implantes, rachas no sistema. A articulação da cultura colaborativa digital com a economia solidária tem revelado um potencial gigantesco de revitalização cultural, em todo o mundo onde ela se desenvolve. Uma das razões é que ela é capaz de “destampar” culturas populares rurais, urbanas, suburbanas, antes invisibilizadas, por sua capacidade de descentralizar e multidirecionar os fluxos de informação e de recursos, antes unidirecionalmente ativados desde um centro industrial para o consumo de massas.

sexta-feira, 22 de março de 2013

CRÍTICA DA ÓPERA "LA CENERENTOLA" DE ROSSINI, TEMPORADA 2013, THEATRO SÃO PEDRO, SÃO PAULO, BRASIL

                                                             Por: Vicente de Percia                                  
                                                                 Enviado especial


"La Cerentola", -ossia La bontá in trionfo  é uma ópera bufa  

em 2 atos com música do compositor italiano Giachino 

Rossini e libreto de Jacopo Ferreti. É baseada no conto de 

fadas Cinderela, do escritor francês Charles Pearault . LA 

CENERENTOLA (A Cinderela) Dramma giocoso em dois atos


 de Gioachino Rossini Montagem comemorativa pelos 15


anos da reinauguração do Theatro São Pedro Emiliano 


Patarra direção musical e regência Dálete Alécio regente do


 coro, Davide Garattini direção cênica, concepção dos 


cenários, figurinos e iluminação Instituto Europeu de Design 


IED realização dos cenários, figurinos e iluminação Loriana


 Castellano mezzo-soprano (Angelina) Leonardo Ferrando 


tenor (Don Ramiro) Homero Velho barítono (DandiniBruno 


Praticò baixo (Don Magnifico) Carlos Eduardo Marcos baixo 


(AlidoroEdna D’Oliveira soprano (Clorinda) Ednéia de 


Oliveira mezzo-soprano (Tisbe* Elenco de cantores da


Academia de Ópera do Theatro São Pedro e convidados .



A temporada de 2013 começou mal com a direção cênica, concepção de cenários e figurinos de Davide Garanttini, Se a pretensão era de uma montagem de uma ópera bufa, tal não aconteceu. O que se viu foi algo de caricato, desigual e carnavalesco no pior sentido. Em muito reforçado pelos pretensiosos e fracos cenários e figurinos que se distanciavam de uma ópera baseada em uma história clássica conhecida nas suas pluralidades de abordagens literárias e musicais. Loriana Castellano,mezzo-soprano italiana, no personagem de Angelina passou tanto despercebida na sua interpretação quanto no seu registro vocal inseguro. A.suavidade, coloratura dos timbres estiveram ausentes, principalmente no II ato da obra, momento de melhor predicado e possibilidade de exibição para uma coloratura melodiosa. O 3º quadro (no salão do trono real) em nenhum momento foi perceptível a magnitude exigida por Rossini em relação ao seu personagem Angelina. Loriana Castellano  se manteve linear como desde o início da sua entrada em cena. Bruno Pratico no papel de Don Magnifico esteve perfeito, relutando com a deficiência dos seus pares, mostrou desenvoltura nos fraseados e no ritmo desejado, soube mostrar consistência ao seu personagem com interpretação e voz na medida certa, foi o melhor em cena. Leonardo Ferrando,tenor uruguaio, não convenceu como Don Ramiro seu timbre mão era condizente com  a obra de Rossini, sua interpretação foi acanhada e desigual, pecou por seu pequeno volume de voz e pela vivacidade exigida. Homero Velho, barítono brasileiro, como Dandini  revelou momentos expressivos, dotado de um belo timbre soube dar desenvoltura ao seu papelé bom interprete, expressivo, apesar de prejudicado por um personagem caricato.Marcou sua presença, em alguns momentos, se destacou, principalmente no I ato com seu personagem estrategista para o desenrolar da história,porém não conseguiu afirnar-se no desenrolar da ópera. Edna D' Oliveira, soprano, como Clorinda e Ednéia de Oliveira, mezzo-soprano no papel de Tisbe,  brasileiras são dotadas de qualidades vocais, bastante prejudicadas pela metamorfoses exigidas; "transformistas e uma comicidade desnecessária que imprimiram aos seus personagens e conseguentemente um desnível vocal com agudos totalmente fora do contexto da obra. .Os recitativos seccos são uma armadilhas rosiniana. assim como a sonoridade das vogais abertas em contraponto com as consoantes. Uma falha perceptível em alguns cantores dessa montagem. O coro como a orquestra foram corretos. Um belo programa distribuído aos presentes  não fez jus a uma encenação com tantos contra-pontos negativos, em várias situações ares amadorísticos de quem improvisa e não conhece a arte do Bel Canto. 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CARNAVAL


Celebrar corpo, consciência e prazer pode ser alternativa à cultura que reduz sexo a fetiche de egos e poderes
Por Katia Marko, editora da coluna Outro Viver | Imagem: Paco Antonino
Chegou o Carnaval. Momento tão esperado por muitos. Espaço para soltar o freio, viver fantasias, desfrutar o prazer. Pacatos cidadãos experimentam o sonho de virar reis e rainhas. Desejos inconscientes escapam pela janela agora aberta com o consentimento social. Tudo vale na busca do prazer.
O meu Carnaval, há alguns anos, tem sido na Comunidade Osho Rachana, onde promovemos um grupo chamado Carnawow. Já está confirmada a participação de 70 pessoas para este ano. Serão quatro dias de trabalho corporal, meditações, trilhas na natureza, encontros, diversão e criatividade. Tudo para aumentar a capacidade de curtir a vida. Pra começar, vamos “limpar o terreno”. Sessões de bioenergética e meditações pra ajudar a soltar tensões e sentimentos guardados e reconectar com a energia do corpo. No domingo, depois de reconectar consigo mesmo, é a vez de encontrar o outro, no sentido mais rico da palavra. Trabalhos terapêuticos que vão ajudar a recuperar a confiança na amizade. Já na segunda-feira, é o espaço para a celebração e o êxtase. O grupo é dividido para criar e apresentar duas escolas de samba com direito a alas, bateria, carros alegóricos e o que mais a imaginação permitir.  No último dia, é relaxar, curtir a natureza e meditar.
Mesmo que todos nós busquemos o prazer, esta é uma palavra que evoca sentimentos conflitantes. Por um lado esta associada com o que é “bom”. Mas, a maioria das pessoas acharia desperdício uma vida devotada ao prazer. Temos medo que o prazer nos leve a caminhos perigosos, onde esqueceríamos deveres e obrigações, deixando que nosso espírito se corrompesse pelo prazer descontrolado.
No livro Prazer, uma abordagem criativa da vida, o médico-psiquiatra Alexander Lowen, explica que todos nós queremos que a vida seja mais do que a luta pela sobrevivência, e deveria ser agradável, e sabemos que todos têm amor a dar. “Mas quando o amor e a alegria desaparecem, sonhamos com a felicidade e procuramos a diversão. Não conseguimos perceber que o alicerce de uma vida alegre é o prazer que sentimos em nossos corpos, e que sem essa vitalidade, ela se transforma na cruel necessidade de sobrevivência, onde a ameaça de tragédia nunca está ausente”.
Na real, em nossa cultura, todos receiam o prazer. “Como a cultura moderna é dirigida mais pelo ego do que pelo corpo, o poder se transformou no principal valor, reduzindo o prazer a uma situação secundária. A situação do homem moderno se assemelha à de Fausto que vendeu a alma a Mefistófeles em troca de uma promessa que nunca poderá ser cumprida. Apesar da promessa de prazer ser uma tentação do diabo, o prazer não pode ser proporcionado pelo diabo”, diz Lowen.
Segundo ele, todos nós, como o Dr. Fausto, estamos prontos a aceitar as tentações do demônio. Ele está dentro de cada um sob a forma de um ego que nos acena com a realização de um desejo desde que o obedeçamos. A personalidade dominada pelo ego é uma perversão diabólica da verdadeira natureza humana. O ego não existe para ser mestre do corpo, mas sim seu servo leal e obediente. “O corpo, ao contrário do ego, deseja prazer e não poder. O prazer é a origem de todos os bons pensamentos e sentimentos. Quem não tem prazer corporal se torna rancoroso, frustrado e cheio de ódio.
O pensamento é distorcido e o potencial criativo se perde. A perda se torna autodestrutiva. O prazer é a força criativa da vida. A única força capaz de se opor à destrutividade em potencial do poder”.
Para Lowen, o prazer e a criatividade estão relacionados dialeticamente. Sem prazer, não haverá criatividade. Sem uma atitude criativa diante da vida não haverá prazer. “Essa dialética surge do fato de ambos serem aspectos positivos da vida. A pessoa viva é sensível e criativa. Através da sensibilidade coloca-se em harmonia com o prazer e através do impulso criativo procura sua realização. O prazer na vida encoraja a criatividade e a comunicação, e a criatividade aumenta o prazer e a alegria de viver”.
Então, para vivermos plenamente o prazer e a criatividade temos que mexer nas tensões do nosso corpo, respirar profundamente e expressar nossas emoções. Essa é a proposta do Carnaval na comunidade em que moro: prazer com consciência.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

ENFOQUE


Em trecho inédito de seu livro mais recente, Noam Chomsky afirma: nada indica que declínio norte-americano prejudique a democracia
Entrevista a David Barsamian, no Tom Dispatch* | Tradução: Gabriela Leite
Os Estados Unidos ainda têm o mesmo nível de controle sobre os recursosenergéticos do Oriente Médio que já tiveram?
Os países que são maiores produtores de combustíveis ainda estão firmemente sob controle das ditaduras apoiadas pelo Ocidente. O progresso obtido pela Primavera Árabe é limitado, mas não insignificante. O sistema de ditaduras controladas pelo Ocidente está ruindo. Na verdade, vem ruindo há algum tempo. Diferente do que ocorria há cinquenta, os recursos energéticos — a maior preocupação dos planejadores norte-americanos — foram, em sua maioria, estatizados. Há tentativas constantes de reverter isso, mas não tiveram sucesso.
Vamos examinar a invasão do Iraque, por exemplo. Para todos, exceto os ideólogos ferrenhos, era muito óbvio que invadimos o Iraque não por causa do nosso amor à democracia, mas porque o país era provavelmente a segunda ou terceira maior fonte de petróleo no mundo, e fica bem no meio da região de maior produção de energia. Mas não se deve dizer isso. É considerado teoria da conspiração.
Os Estados Unidos foram seriamente derrotados pelo nacionalismo iraquiano — principalmente por resistência não-violenta. Podia-se matar os insurgentes, mas se conseguia lidar com meio milhão de pessoas fazendo manifestações nas ruas. Passo a passo, o Iraque conseguiu desmantelar o controle estabelecido pelas forças ocupantes. Em novembro de 2007, já estava se tornando muito claro que Washington teria muita dificuldade para atingir suas metas. O interessante é que, naquele momento, elas estavam explicitamente estabelecidas.
Em novembro de 2007, o segundo governo de Bush emitiu declaração oficial sobre que arranjo futuro que o Iraque iria ter. Havia dois requisitos principais: primeiro, os Estados Unidos deveriam estar livres para desencadear operações de combate a partir de suas bases militares, as quais seriam preservadas. A segunda meta era “encorajar o fluxo de investimentos estrangeiros ao Iraque, especialmente os norte-americanos.” Em janeiro de 2008, Bush deixou isso claro em uma de suas notas oficiais. Dois meses depois, ao enfrentar a resistência iraquiana, os Estados Unidos tiveram que desistir destes objetivos. O controle sobre o Iraque estava desaparecendo diante de seus olhos.
O Iraque foi uma tentativa de reinstituir à força algo do velho sistema de controle, mas ela foi derrotada. Em geral, acredito, as políticas estadunidenses continuam tentando constantemente voltar à Segunda Guerra Mundial. Mas a capacidade de implementá-las está declinando.
Declinando devido à fraqueza econômica?
Em parte, porque o mundo está simplemente tornando-se mais diverso. Ele tem centros de poder mais diversos. No fim da Segunda Guerra, os Estados Unidos estavam absolutamente no topo de seu poder. Tinham metade da riqueza mundial e todos os seus competidores haviam sido destruídos ou seriamente atingidos. Washington tinha uma posição de segurança inimáginavel, e desenvolveu planos para, essencialmente comandar, o mundo. Não era algo irrealista, àquela época.
Isso era chamado de o planejamento da “Grande Área”?
Sim. Logo após a Segunda Guerra Mundial, George Kennan, chefe do pessoal de planejamento político do Departamento do Estado dos EUA, e outros, rascunharam os detalhes, que foram então implementados. O que está acontecendo agora no Oriente Médio, no norte da África e na América do Sul substancialmente retoma o que acontecia no fim dos anos 1940. A primeira grande resistência à hegemonia dos EUA deu-se em 1949. Foi quando se deu algo que é chamado curiosamente de “a perda da China.” É uma frase muito interessante, nunca renegada. Houve muita discussão sobre quem foi responsável pela perda da China, virou um grande assunto doméstico. Mas é uma expressão muito interessante. Você só pode perder alguma coisa se ela já lhe pertenceu. Toma-se por garantido que nós possuímos a China. Portanto, se eles alcançassem a independência, nós teríamos perdido a China. Mais tarde vieram as preocupações sobre “a perda da América Latina”, “a perda do Oriente Médio”, “a perda de” alguns países. Tudo baseado na premissa de que nós possuímos o mundo e qualquer coisa que enfraqueça nosso controle é uma perda para nós, que deve ser recuperada.
Hoje, se você ler, digamos, revistas de política externa, ou acompanhar os debates do Partido Republicano, verá que estão dizendo “Como vamos prevenir perdas futuras?”
Por outro lado, a capacidade de preservar o controle declinou nitidamente. Em 1970, o mundo já era o que é chamado de economicamente tripolar, com um centro industrial estadunidense; um europeu, com núcleo na Alemanha e aproximadamente comparável, em tamanho; e um do leste asiático, baseado no Japão, que era então a região de maior crescimento no mundo. Desde então, a ordem econômica global tornou-se muito mais diversa. Por isso, é difícil manter nossas políticas, mas os princípios subjacentes não mudaram muito.
Tome, por exemplo, a doutrina Clinton. Ela significava que os Estados Unidos têm o direito de recorrer à força unilateral para assegurar “livre-acesso aos mercados-chave, fontes de energia e recursos estratégicos.” A frase vai além de qualquer coisa que George W. Bush disse, mas o presidente não a alardeou, nem era arrogante e áspero. Por isso, não houve tumulto. A crença nesse direito continua até o presente. Também é parte da cultura intelectual.
Logo após o assassinato de Osama Bin Laden, entre todas as comemorações e aplausos, houve alguns comentários de crítica questionando a legalidade do ato. Séculos atrás, costumava haver uma coisa chamada presunção de inocência. Se você apreende um suspeito, ele é apenas suspeito, até que se prove culpado. Ele deve ser levado a julgamento. É uma parte essencial da lei norte-americana e tem origens na Carta Magna. Por isso, algumas vozes isoladas disseram que talvez não devêssemos jogar pela janela toda a base da justiça anglo-americana. Isso provocou muitas reações de desconforto ou furiosas, mas as mais interessantes partiram, como sempre, dos liberais de esquerda.
Matthew Yglesias, um comentarista conhecido e muito respeitado, escreveu um artigo no qual ridiculariza essas visões. Ele disse que são “surpreendentemente ingênuas”, tolas. É como se expressasse a razão. Disse que “uma das principais funções da ordem institucional internacional é precisamente legitimar o uso de força militar mortal por potências ocidentais.” Obviamente, não estava referindo-se à Noruega… mas aos Estados Unidos. Ou seja, o princípio no qual o sistema internacional está baseado é de que Washington tem o direito de usar a força à sua vontade. Falar sobre a violação da lei internacional, ou algo do tipo, pelos EUA, é “surpreendentemente ingênuo”, completamente bobo. Por acaso, eu fui o alvo dessas observações, e eu estou feliz por confessar minha culpa. Eu acredito, sim, que a Carta Magna e a lei internacional valem alguma atenção.
Menciono o fato apenas para ilustrar que o núcleo da cultura intelectual, mesmo entre a esquerda liberal, não mudou muito. Mas a capacidade de implementá-lo está nitidamente reduzida. É por isso que existe todo esse papo sobre o declínio dos Estados Unidos. Dê uma olhada na edição de fim de ano do Foreign Affairs, o principal jornal do establishment. Sua capa perguntava, em negrito: “É o fim da América?” É uma preocupação-padrão daqueles que acreditam que deveriam ter tudo. Se você acredita que precisa ter tudo, e que tudo que sai do seu controle é uma tragédia, então o mundo está entrando em colapso. É o fim dos Estados Unidos? Há um tempo, nós “perdemos” a China, perdemos o sudeste da Ásia, perdemos a América do Sul. Talvez, venhamos a perder também o Oriente Médio e os países do norte da África. É o fim da América? É um tipo de paranoia, mas é a paranoia dos super-ricos e dos superpoderosos. Para eles, não ter tudo é um desastre.
New York Times descreve o “dilema definidor da política da Primavera Árabe: como enquadrar impulsos norte-americanos contraditórios, que incluem o apoio à mudança democrática, o desejo de estabilidade e a cautela diante dos islamitas, que se tornaram uma força política potente.” O Times identifica três objetivos dos EUA. O que fazer com eles?