quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O NEGATIVISMO CRÍTICO DE MICHEL HOULLENBECQ



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Romances do autor francês (na foto) provocam a reflexão sobre o mundo contemporâneo com forma inovadora e violenta de realismo
Por Alexandri Pilati*
– O mundo é medíocre – Jed terminou por dizer. – E quemcometeu esse assassinato aumentou a mediocridade do mundo.M. Houellebecq. O mapa e o território.
se agredirmos o mundo com suficiente violência, eleacaba cuspindo fora o seu dinheiro sujo;mas nunca, nunca nos devolve a alegriaM. Houellebecq. A possibilidade de uma ilha.
Talvez Michel Houellebecq seja o maior fenômeno literário europeu depois de José Saramago. Seus livros vendem muito, tanto na França quanto em outros países e diz-se que a mudança de editora que protagonizou em 2005 movimentou uma das maiores somas do mercado editorial europeu, chegando próxima de 1 milhão de euros. Nascido em 1956, o autor envolve-se em inúmeras polêmicas e seus romances são ou odiados ou idolatrados por milhares de leitores ao redor do mundo. Nisso, Houellebecq é comum; é um autor bem sucedido do nosso tempo. No Brasil, estão disponíveis os romances Partículas elementares (Ed. Sulina, 1999), Extensão do domínio da luta (Ed. Sulina, 2011), Plataforma (Ed. Record, 2002), A possibilidade de uma ilha (Ed. Record, 2006) e O mapa e o território (Ed. Record, 2012). Há ainda publicado em português o volume Um escritor no fim do mundo (Ed. Record, 2011), uma interessantíssima narrativa de viagem de autoria de Juremir Machado da Silva, que é tradutor e amigo de Houellebecq e junto com ele viajou à Patagônia.
Mas no que é incomum esse ótimo romancista de nosso tempo? Gostaria de, neste momento, indicar algumas questões que julgo importantes da forma literária do autor francês a partir de seus dois últimos romances, O mapa e o território e A possibilidade de uma ilha. No entanto, acredito que a leitura em conjunto de seus romances pode ser ainda mais reveladora de uma tendência à formalização de um realismo crítico inovador que garante à obra de Houellebecq uma posição de destaque no cenário literário atual, não apenas pelas grandes cifras que gera e pelo grande público que atinge, mas pela sua capacidade de dar equação literária a uma observação reveladora de impasses importantes do mundo contemporâneo.
Uma das principais constatações do leitor dos romances de Houellebecq é a de que as suas narrativas dão forma a um tipo muito especial de negativismo. Aparentemente, elas advogam que não há saída para humanidade ou possibilidade de crença em algum tipo de redenção. Os personagens caminham para a morte, o mundo é insolúvel, não há força utópica que dê sentido às relações sociais. Ben Jeffrey, num dos bons estudos disponíveis sobre a obra de Houellebecq, desenvolve a hipótese de um “realismo depressivo” (depressive realism)i, procurando explicar como o negativismo faz parte de uma espécie de super-consciência do mundo, que renega ilusões. Se Jeffrey diagnostica bem a ideia de super-consciência como definidora do sentimento dos personagens centrais e dos narradores de Houellebecq, seu trabalho deixa em aberto o desenvolvimento da discussão acerca da função que tal super-consciência desempenha na estrutura da obra. Nos dois romances que discutimos aqui, essa super-consciência pode ser lida nos termos de uma função fortemente política, tendo em vista que os seus protagonistas são intelectuais que não se furtam a pensar nas coisas más que definem o mundo contemporâneo. Podemos observar essa postura, lembrando que a percepção sagaz da miséria humana deixou há algum tempo de ser a pauta principal para os intelectuais, constituindo uma omissão política que tem se intensificado num mundo-mercado em que a gravidade reflexiva na arte e a percepção do mal sistêmico na sociedade são, no mínimo, inconvenientes. Por aqui começa-se, pois, a acreditar que o negativismo por vezes depressivo dos romances de Houellebecq pode ser tomado como força crítica que opera papel importante na perspectiva realista dos seus narradores.
Vejamos alguns outros elementos da forma narrativa de Houellebecq mais detidamente. Nesses dois romances a que nos referimos, temos um tipo muito semelhante de protagonista. Jed Martin, de O mapa e o território, e Daniel, de A possibilidade de uma ilha, são artistas consagrados e muito ricos. O primeiro é fotógrafo e artista plástico; o segundo, um humorista cáustico e politicamente incorreto. Ambos, aparentemente por sorte, conseguem destaque em seu ofício artístico, o que lhes confere, numa velocidade impressionante, uma riqueza de somas incontáveis, libertando-os, por assim dizer, de qualquer sistema social que lhes garanta a sobrevivência e lhes exija algum desacomodar-se em busca do sustento. Em suma, são dois ricaços a quem pouca coisa importa, a não ser algo de sexo, mercadorias específicas do universo dos milionários planetários, isolamento, tédio etc. Dessa maneira, nossos protagonistas podem ser considerados pessoas relativamente “desligadas” do mundo, o que garante a eles uma espécie de liberdade discursiva para avaliar as tensões e turbulências da esfera “normal” da existência, cujas contradições vão por eles sendo diagnosticadas. Esse é o espaço de classe que não só favorece como lastreia a super-consciência negativista dos narradores. No caso de A possibilidade de uma ilha, o narrador se apresenta em primeira pessoa; no caso de O mapa e o território, ele se coloca em terceira pessoa.
Não obstante essa diferença, os dois romances comungam de uma perspectiva de classe semelhante: o mundo dos milionários globais ligados ao espetáculo e ao capital financeiro. Isolados, os protagonistas, a partir da sua condição de grandes proprietários com algum conhecimento das relações humanas, expõem não apenas as misérias dos outros, mas a própria condição miserável e oca do fetichismo personificado que, em fim de contas, é o âmago de suas próprias existências. Tanto o artista Jed Martin quanto o humorista Daniel estão conscientes do vazio e do despropósito que as suas próprias expressões artísticas carregam, aumentando “a mediocridade” do mundo. Nesse sentido é revelador o trecho de A possibilidade de uma ilha, em que diz o narrador:
“Eu nunca sentira simpatia pelos pobres, e agora que minha vida estava fodida sentia menos que nunca; a superioridade que minha grana me dava sobre eles constituía magra consolação: eu podia olhá-los de cima enquanto eles catavam seus montes de entulho, as costas vergadas pelo esforço enquanto descarregavam suas cargas de tábuas e tijolos; podia considerar com ironia suas mãos devastadas, seus músculos, os calendários de mulheres peladas que decoravam suas máquinas. Essas satisfações mínimas, eu sabia, não me impediriam de invejar sua virilidade não contrariada, simplista; sua juventude também, a brutal evidência de sua juventude proletária, animal.”ii
Aqui temos a revelação da condição de classe do narrador e de sua consciência do mundo da exploração capitalista. Ademais, temos uma imagem que se impõe quase como que pertencente a um tempo anterior à tecnologia, em que o mundo de músculos, suor e lágrimas dos explorados é capaz ainda de resgatar o produtor artístico de seu abissal ensimesmamento, mesmo que esse resgate se revire em ironia na forma de apresentação de um “ápice de frustração histórica”iii. O mundo “cospe fora o seu dinheiro sujo”, mas não nos devolve a alegria.
O ensimesmamento de classe está também em Jed Martin, que, segundo o narrador de O mapa e o território:
“seria perguntado, em diversas oportunidades, o que significava, na sua opinião, ser um artista. Não encontraria nada muito interessante ou muito original a dizer, à exceção de uma única coisa, que por conseguinte repetiria em quase todas as entrevistas: ser artista, na sua opinião, era antes de tudo ser alguém submisso. Submisso a mensagens misteriosas, imprevisíveis, que poderíamos, na falta de termo melhor e na ausência de toda crença religiosa, qualificar como intuições”.iv
Há, portanto, em Jed Martin e Daniel uma fusão de isolamento de classe e de consciência dos limites da forma artística que se unem em uma espécie muito peculiar de narrativa crítica da contemporaneidade. No entanto, se colocamos o ingrediente da posição política dos narradores e de suas funções sociais na interpretação dos romances, chegamos a alguma possibilidades de leitura de seus efeitos realistas, num sentido que não seja meramente derrotista.
A primeira dessas possibilidades encontra respaldo no fato de que as subjetividades dos personagens centrais não têm vigor suficiente para criarem laços fortes entre eles e os demais participantes da trama. Não há valor que os una em algo que se possa chamar de comunidade ou sociedade. Em A possibilidade de uma ilha, o que mais se aproxima disso é a seita cientificista que será frequentada, quase à revelia, pelo protagonista, mas que será depois decisiva em seu destino. Essa fragilidade das relações humanas abre espaço na forma romanesca de Houellebecq para performances avaliativas, judicativas, conforme o caso, por parte do narrador ou do protagonista, que reforçam a consistência da representação crítica da humanidade do alto capitalismo empreendida nos textos. Ou seja, o autor põe em movimento, por um lado, o espetáculo de nossa miséria e por outro sua avaliação, não menos espetacular e miserável. É aí, no curto-circuito entre fatos de uma sociabilidade esgarçada e incessante avaliação negativista e entediada da miséria, que podemos encontrar algum potencial de realismo crítico na exposição de Houellebecq da especificidade de nossas “frustrações históricas”.
Nessas avaliações dos protagonistas está desenhado o limite existencial do mundo pós-político, ou seja, o limite existencial do mundo do espetáculo – a morte em vida; plena de subjetividades desproblematizadas. Nas frágeis conexões entre os personagens e na alternativa ácida do cinismo desencantado dos personagens centrais dos romances de Houellebecq, encontramos algum espaço para a gravidade intelectual que é anti-espetacular. Assim, uma gravidade reflexiva não afetada sustenta o realismo do autor, numa estruturação ficcional muito inteligente do discurso crítico, via ceticismo amargo. Tudo acaba mudando de sinal e o que é luminoso no espetáculo pós-moderno e pós-político é narrado como tédio, tediosamente. Trata-se, pois, de uma gravidade narrativa que, aliada ao tédio e à miséria trivial das vidas representadas, torna a leitura dos livros, em alguns momentos, uma penosa operação de confronto com as nossas próprias mesquinharias cotidianas. E, não obstante o nosso desejo de desidentificação com os protagonistas, suas avaliações e pobres relações sociais acabam por confirmar a mediocridade da nossa própria existência, ou, como vemos em um dos poemas compostos por Daniel em A possibilidade de uma ilha, nos enxergamos num espelho: “onde somente nos espera// a memória vã/ dos nossos dias mortos/ um sobressalto de ódio/ e o desespero nu.”v
Eis aí, salvo engano, algo da essência do longo comentário estético que é o Mapa e o território: o desejo de alcançar, com uma forma narrativa inquieta e inquietante, o centro ontológico do capitalismo pós-industrial, o mundo dos serviços anódinos, do espetáculo pós-político, da tecnologização da humanidade. É a marca de classe do ponto de vista narrativo que nos ajuda a ver essas coisas e que nos põe de frente com o problema: com a sociabilidade em crise, que crise é possível trazer para o âmago das formas representacionais, tais como a literatura? Nesse sentido, parece que duas coisas desempenham um papel interessante na composição dos romances de Houellebecq: a utilização criticamente “plagiária” da linguagem instrumental e instrucional da comunicação contemporânea e o trabalho ficcional com figurações do futuro da humanidade. Ambos os romances trabalham com fatos e situações que ocorrem no futuro com relação a nós que os lemos. Não sendo ficção científica pura e simples, acabam sendo ficções-diagnóstico do presente.
Em nossas projeções de futuro, comparece não apenas aquilo que consideramos para nós mesmos utópico (ainda que o uso dessa palavra tenha sido consagrado atualmente ao ostracismo ou ao mais abissal individualismo), mas também, talvez em silêncio, os nossos piores fantasmas. Com suas narrativas que tendem ao futuro e fazem pouco caso da linguagem tecnificada, o que Houellebecq faz é resgatar do silenciamento nossos fantasmas embutidos em nossos sonhos eufóricos de futuro. O elenco desses fantasmas, disperso nos romances de Houellebecq, dá corporeidade artística à desencantada frase de F. Kürnberger, tão cara a T. Adorno: “A vida não vive”. Lendo seus textos, damos de cara com o fato quase insuportável de que atualmente a vida não vive na massificação dos sentimentos, no massacre da delicadeza artística pela estética rasa do espetáculo da indústria cultural e do mercadão filosófico pós-moderno; a vida não vive na onda avassaladora de biologização do social, que tende a formar androides cujo corpo resiste à idade, mas cujas subjetividades encontram conforto ao ajoelharem-se, infantilmente penitentes, ao dinheiro; a vida não vive na maneira como a educação tem sonegado a oportunidade de emancipação em favor da aposta na instrumentalização dos jovens para jogar o jogo da caduca economia global. A vida não vive porque se tornou um brilhante e luminoso espetáculo de tédio e miséria subjetiva. A vida não vive, enfim, também porque não se reconhece como crise. E não se reconhece como crise porque, salvo em raríssimas exceções, não tem encontrado meios de se representar como crise.
Os romances de Houellebecq são a crise necessária; adentrando com coragem o mundo medíocre do capitalismo atual, eles resgatam uma substância realista e crítica que torna esse mesmo mundo menos medíocre, embora isso se faça pelo mais aparente e desencantado negativismo. Não deixa de ser utópico o gesto de formalização artística da falta de utopia, por isso é bom saber que há autores pensando o mundo com as entranhas, tal como Michel Houellebecq. Encontrá-los é ter um pouco de esperança de que a vida pode voltar a viver.
–*Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília. Poeta e crítico literário é autor, entre outros, de A nação drummondiana (7Letras, 2009).

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A OPÇÃO PERMACULTURA



Um estudioso da integração entre atividade humana e natureza defende, além da agroecologia, mudança radical de hábitos de consumo, habitação e uso de energia
Compreendida como um “sistema de permanência para uma nova cultura”, a permacultura propõe a sustentabilidade dos ecossistemas a partir de outra postura diante do uso dos recursos naturais e do consumo. Desenvolvida no Brasil há mais de 15 anos, esta prática avança com projetos de bioconstrução, construções ecologicamente corretas, “para retirar melhor proveito de sol, dos ventos, com o melhor conforto térmico e menor consumo de energia”, explica João Rockett.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, o diretor do Instituto de Permacultura e Ecovilas da Pampa – IPEP enfatiza que as discussões acerca das questões ambientais não abordam “o ponto-chave da questão”: o consumo exacerbado. “Não basta separar o lixo. As pessoas estão consumindo uma série de coisas que não precisam, porque aumentou o poder aquisitivo e a oferta de produtos. Os produtos também são vendidos em embalagens desnecessárias. Quando você compra uma cola Super Bonder, por exemplo, que tem menos de 10 cm de comprimento por 1,5 cm de largura, compra também uma embalagem que tem um palmo de comprimento, porque tem toda uma logística”, assinala. E dispara: “Existem duas maneiras de uma sociedade mudar a sua cultura ou forma de viver: uma é quando planeja e toma uma atitude em cima do planejamento; a outra é quando se chega no caos, na crise. Eu acho que, do jeito que estamos, chegaremos na crise”.
João Rockett tem experiência na área de Agronomia, com ênfase em Extensão Rural. Confira a entrevista. 
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João Rockett: Aqui no Pampa nós temos um instituto de permacultura ligado à questão do clima. Existem institutos nos demais biomas brasileiros, mas nessa região especificamente consideramos o clima, que tem uma oscilação de temperatura diferente: muito calor no verão e muito frio no inverno, tendo oscilações de mais de 20 graus num mesmo dia.
No início deste projeto, há 15 anos, construímos uma casa com uma excelente pegada ecológica, feita de palha de santa-fé. As paredes da casa foram feitas de fardo de palha de arroz, considerando que esses são materiais típicos da região. Essa casa tem uma diferença térmica de 8 a 14 graus do ambiente externo, ou seja, uma condição térmica muito alta. Também estamos multiplicando algumas variedades antigas de trigo, que aos poucos foram deixadas de lado da produção por causa dos agroquímicos. O projeto também propõe um banheiro seco, com uso zero de água, a partir da utilização de um sistema de termosifonamento e secagem das fezes. Também utilizamos filtros biológicos para banheiros que utilizam água, com o que buscamos reutilizar essa água na agricultura. Além disso, coletamos a água da chuva para reutilizá-la. Enfim, a permacultura consiste numa série de práticas que visam à sustentabilidade.
A partir da permacultura é possível recuperar o solo degradado? É possível aplicar a permacultura considerando modelo agrícola extensivo brasileiro?
João Rockett: Com certeza, porque o que já foi vivo antes pode ser vivo depois. Um exemplo clássico é a água que sai do sistema industrial e do esgoto e que é revertida como água potável. No solo acontece o mesmo.
O primeiro projeto de permacultura foi realizado na Amazônia, na área de uma escola agrícola da periferia de Manaus. Essa escola foi a primeira, no Brasil, a receber o pacote da revolução verde dos EUA. Visitei várias vezes essa escola quando implementaram o processo de recuperação da área. O que se observou ao longo dos anos é que o terreno se recupera facilmente se for queimado e se for impactado por uso de defensivos agrícolas. Entretanto, o espaço com maior dificuldade de recuperação foi aquele em que se utilizavam equipamentos industriais tais como arados. Com isso concluímos que o solo tem dificuldade de se recuperar quando ele é compactado, quando se tira o ar, porque este é a base da vida do solo. Quando a compactação da terra é muito alta, não se tem ar e não se deixa penetrar a água. Sem esses dois elementos, fica difícil recompor a terra.
A permacultura também propõe a criação de ambientes urbanos produtivos e sustentáveis. Como essa metodologia pode ser aplicada no espaço urbano, visando à sustentabilidade das cidades, por exemplo? Há algum projeto nesse sentido?
João Rockett: Todas essas questões são de ordem cultural. A própria palavra permacultura deriva da união de “cultura pemanente”, que iniciou com o processo de agricultura e deu origem à agricultura permanente. Ou seja, criou-se um sistema de permanência para uma nova cultura. Já que estamos dizendo que a nossa forma de vida é insustentável, que ela está impactando o planeta, temos de mudar. Os valores das pessoas em relação ao uso dos recursos naturais estão se perdendo. Então, a mudança de cultura não é só uma questão de manutenção de uso dos recursos ambientais. É preciso perceber que tudo virou um produto a ser mercantilizado.
Chegamos a um ponto limite, mas existem projetos em que as pessoas têm outro modo de produção, inclusive em apartamentos, terrenos baldios. Para isso, é preciso ter uma vontade muito grande para mudar a cultura. O Brasil tem um fator interessante no sentido de que nele quem trabalhava eram o índio e o negro, diferentemente da Europa e dos EUA, onde os colonizadores realizavam os trabalhos. Em nosso país todo trabalho relacionado à mão de obra é desmerecido. Assim, temos um fator mais difícil de lidar no sentido de pensar numa forma de as pessoas produzirem seu próprio alimento.


Desde quando a permacultura é desenvolvida no país? Como vê os investimentos na área e em que aspectos ela tem avançado nos últimos anos?

João Rockett: No Brasil a permacultura é desenvolvida há 15 anos, e houve uma identificação logo que montamos os primeiros centros, que eram espaços para visitação. A nossa intenção era de que a permacultura fosse incorporada com a cultura, e hoje já existem editais de empresas como a Petrobras citando-a como uma linha de princípio para a execução de alguns projetos. Aos poucos se está abrindo espaço para essa discussão e muitas pessoas investem em telhados verdes, em bioconstruções.
O problema ambiental hoje é um problema de consumo. Não basta separar o lixo. As pessoas estão consumindo uma série de coisas das quais não precisam, porque aumentou o poder aquisitivo e a oferta de produtos. Os produtos também são vendidos em embalagens desnecessárias. Quando você compra uma cola Super Bonder, por exemplo, que tem menos de 10 cm de comprimento por 1,5 cm de largura, compra também uma embalagem que tem um palmo de comprimento, porque tem toda uma logística. Da mesma forma compramos um creme dental que vem embalado dentro de uma caixinha de papelão, e já está embalado em uma bisnaga. Temos de diminuir a quantidade de material que estamos colocando no planeta, porque tudo isso vai para a natureza.
A proposta energética da permacultura está atrelada à questão de rever o consumo energético?
João Rockett: De acordo com os princípios da permacultura, o chuveiro elétrico é uma coisa abominável por causa do alto consumo de energia para pouca eficiência. É comum qualquer loja de eletrodomésticos oferecer chuveiros de mais de 10 mil watts, sendo que há dez anos utilizávamos chuveiros de 5 mil watts. Cada chuveiro desses têm condições de movimentar uma pequena indústria. É como se estivesse ligando uma grande máquina. O problema não é que esteja faltando energia; nós é que estamos utilizando mal a energia que temos.
Imagina se fôssemos somar – eu estou fazendo esse cálculo – todos os chuveiros elétricos do país. O consumo é altíssimo, e o valor da transmissão de energia encarece. Então, quanto mais alto for o consumo, mais caro será para levar essa energia. Se abolíssemos o chuveiro elétrico, não precisaríamos de uma hidrelétrica como a de Belo Monte. Projetos como esse são uma agressão ao planeta, às culturas. É a invasão de um espaço natural em prol de uma geração de energia, de uma suposta necessidade de energia, quando, na verdade, teria de mudar a forma de consumo dessa energia.
No supermercado, por exemplo, existem balcões gigantes, sem vidros, resfriando produtos. Eles geram energia 24 horas por dia, sem nunca desligar a máquina, porque ela não está fechada: é como ter uma geladeira em casa com a porta aberta. Temos de mudar imediatamente essa forma de resfriamento. Não discutimos o ponto-chave da questão, que é o consumo exacerbado, ou seja, consumo sem critérios. Existem duas maneiras de uma sociedade mudar a sua cultura ou forma de viver: uma é quando planeja e toma uma atitude em cima do planejamento; a outra é quando se chega no caos, na crise. Eu acho que, do jeito que estamos, chegaremos a uma época de crise.
Precisamos rever o consumo, as construções, projetar as casas para permitir a entrada do sol no inverno, casas que consumam menos energia. Ainda seguimos o caminho da estética, enquanto deveríamos seguir o caminho da funcionalidade, porque a estética só tem custos. É como a moda: quer coisa que gere mais lixo do que a moda? A moda é lixo. A roupa que deixou de usar por um critério “x” passa a ser usada cinco anos depois porque é moda. É um nível de futilidade muito grande para uma humanidade, que já deveria estar em outro ponto, com outra visão de mundo.
O que podemos entender por bioconstrução e como ela se relaciona com a permacultura?
João Rockett: A bioconstrução foi criada pela permacultura, que observou como as civilizações antigas organizam o seu espaço, e a partir daí buscou informação para o seu projeto. Então, as pessoas que estão num ambiente onde há muita pedra irão, obviamente, construir suas casas com pedras; as pessoas que estão num ambiente com muita palha, com muita madeira, irão construir suas casas com esses materiais. Ou seja, o homem é o fruto do seu meio, e esse meio oferta materiais para ele construir. Assim, o prefixo “bio” considera o meio em que o homem está inserido, e a arquitetura vernacular considera essa lógica da arquitetura antiga e tribal.
Todos os povos antepassados tinham uma lógica de construção a partir do material da região, do declínio do terreno, do clima etc., e é isso que a bioconstrução traz para dentro da tecnologia de construção. Chamamos de bioconstrução a construção que tem um olhar pelo ambiente. Nesse processo, planeja-se a forma de construção e os materiais a serem utilizados para retirar melhor proveito de sol, dos ventos, com o melhor conforto térmico e menor consumo de energia.

sábado, 22 de dezembro de 2012

NOVAS AVALIAÇÕES ACERCA DAS SOCIEDADES


Lia Diskin disseca ultra-individualismo das sociedade submissas aos mercados, mas aposta nos novos valores da juventude e numa política despartidarizada
Entrevista a Inês Castilho | Imagem: David Revoy, Nascissus & Echo (detalhe)
A vida é um fenômeno que resulta de relações: “não existe vida no isolamento”, ensina a professora e conferencista argentina Lia Diskin – em entrevista realizada para o estudo Política Cidadã, produzido pelo instituto Ideafix para o IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade). Os valores que deveriam nos orientar são, portanto, interdependência, empatia, solidariedade, cooperação, partilhamento: “a compreensão de que estamos imersos em uma comunidade viva que nos sustenta”. Ao contrário, a ideologia dominante em nossa cultura é a do individualismo. “Mas nenhum de nós se fez sozinho, embora se tente fazer crer que a criação desta obra ou daquela ideia seja exclusivamente de fulano ou beltrano”, recorda ela.
Lia Diskin vive no Brasil desde 1972, quando fundou a Associação Palas Athena – organização sem fins lucrativos que adota a gestão compartilhada e atua nas áreas editorial, de educação, saúde, direitos humanos, meio ambiente e promoção social. Passou o ano de 1986 estudando budismo em Dharamsala, na Índia, terra dos exilados tibetanos, tendo o Dalai Lama como um de seus professores. Desde então tornou-se uma espécie de embaixadora do líder budista no Brasil, e organizou suas visitas ao país em 1992, 1999, 2006 e 2011. É também coordenadora do Comitê Paulista da Década da Cultura de Paz, da Unesco.
Especialista em técnicas de meditação, Lia observa que vivemos olhando para fora, em busca de aprovação, deixando assim de perceber o que se passa em nossa mente. “Estamos habitando uma casa da qual o único que conhecemos é a janela, e da janela para fora. O que acontece dentro da casa, quais são os outros integrantes desse espaço, qual é a dinâmica que se estabelece dentro desse espaço, a gente simplesmente ignora.” Mas a vida vai além disso, lembra.
Vivemos nos equilibrando sobre a crosta de um planeta que gira em alta velocidade em torno do sol, na periferia de uma dentre bilhões de galáxias do universo. Um planeta cuja estabilidade está sendo afetada por nós, que estamos colocando em risco o fenômeno da vida. “Não somos o centro da galáxia, dentro dela é tudo elíptico. O centro é o Sol, sem o qual não há vida. Nosso sistema é periférico, não é central”, ela lembra, nos devolvendo a humildade.
Admiradora de Gandhi, Lia observa que ainda não estudamos adequadamente as estratégias político-pedagógicas que o líder pacifista indiano colocou em marcha já em meados do século XX para, sem um único tiro, derrotar o Império Britânico e libertar a Índia. “Gandhi foi um dos primeiros a promover o poder local – do qual hoje falamos tanto. Insistia constantemente em fortalecer, nutrir, empoderar as aldeias.”
Ao falar sobre a necessidade de redefinir nossas prioridades, ela elege a educação como meio por excelência para o cultivo de outros valores. E aponta a televisão, grande instrumento de lazer do povo brasileiro, como o instigador da violência e do desrespeito ao humano. “É o deboche, a ridicularização do outro, em que todo mundo ri da desgraça alheia. Como achar graça de uma criança que está aprendendo a caminhar e cai? Como isso pode ser motivo de chacota?”
Sobre a atividade política, Lia entende que – ao contrário do que hoje se considera – talvez seja a mais elevada e mais nobre que podemos ter. “Porque nos erguemos acima dos interesses pessoais e passamos a contemplar o que atende às necessidades de uma parcela maior da população.” Ela defende que os interesses nacionais e coletivos devem estar acima de qualquer tipo de partidarismo. “Se a gente não entender que político é aquilo que atende a todos nós, independente do partido em que estamos engajados, vai ser muito difícil resgatar o princípio fundante da vida comunitária, da vida pública”, explica, ressalvando que apesar disso os partidos políticos devem ser fortalecidos, já que são eles que mantêm a roda dos espaços institucionais em funcionamento.

domingo, 16 de dezembro de 2012

A UTOPIA É POSIVEL


 José Miquel de Prada Poole 

Paralelamente se fez uma série de eventos que se vinculavam  a várias composições. Uma das linguagens foi " La Instant City". Um projeto voltado para investigações sobre as possibilidades que oferecem diferentes materias, como o plástico. Consta que à princípio esses materias tinham sido usados para fins militares nos anos sessenta e se adaptaram a vida cotidiana e ao ócio. Grupos como Archigram y Haus -Rucher Co, os arquitetos Frei Otto e Hans Walter Müller são exemplos dessa tendência. " La Instant City surgiu para facilitar alojamentos a estudantes que assistiam a congressos de arte. O manifesto que surgiu amplamente e atingiu o circuito internacional foi voltado para clonstruir uma cidade que se basearia em um trabalho como veículo de comunicaçâo. José Miquel de Prada Paoole proporciono os conhecimentos ténicos para seu projeto.:uma cidade de plástico baseada em um sistema construtivo simples de figuras geométricas sensíveis. Cilindros e esferas que se unem e podem crescer conforme algumas necessidades.
Museu de Arte contemporânea de Barcelona
Vicente de Percia

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

ENTREVISTA COM MANUEL CASTELLS


Culturas econômicas alternativas teriam sido reforçadas pela crise. Mas sociólogo adverte: sistema não entrará em colapso por si mesmo
Entrevista a Paul Mason | Tradução: Gabriela Leite | Imagem: Binho Ribeiro
O professor Manuel Castells é um dos sociólogos mais citados no mundo. Em 1990, quando os mais tecnologicamente integrados de nós ainda lutavam para conseguir conectar seus modens, o acadêmico espanhol já documentava o surgimento da Sociedade em Rede e estudava a interação entre o uso da internet, a contracultura, movimentos de protesto urbanos e a identidade pessoal.Paul Mason, editor de notícias econômicas da rádio BBC, entrevistou o professor Castells na London School of Economics (Escola de Economia de Londres) sobre seu último livro, “Aftermath: The Cultures of Economic Crisis” (“Resultado: as Culturas da Crise Econômica”), ainda sem tradução para português.Castells sugere que talvez estejamos prestes a ver o surgimento de um novo tipo de economia. Os novos estilos de viver dão sentido à existência, mas a mudança tem também um segundo motor: consumidores que não têm dinheiro para consumir.São práticas econômicas não motivadas pelo lucro, tais como o escambo, as moedas sociais, as cooperativas, as redes de agricultura e de ajuda mútua, com serviços gratuitos – tudo isso já existe e está se expandindo ao redor do mundo, diz ele. Se as instituições políticas vão se abrir para as mudanças que acontecem na sociedade – é cedo para saber. Seguem trechos da conversa.
O que é surgimento de novas culturas econômicas?
Quando menciono essa Cultura Econômica Alternativa, é uma combinação de duas coisas. Várias pessoas têm feito isso já há algum tempo, porque não concordam com a falta de sentido em suas vidas. Agora, há algo mais — é a legião de consumidores que não podem consumir. Como não consomem — por não terem dinheiro, nem crédito, nem nada — tentam dar sentido a suas vidas fazendo alguma coisa diferente. Portanto, é por causa das necessidades e valores — as duas coisas juntas — que isso está se expandindo.
Você escreveu que as economias são culturais. Pode falar mais sobre isso?
Se queremos trabalhar para ganhar dinheiro, para consumir, é porque acreditamos que comprando um carro novo ou uma nova televisão, ou um apartamento melhor, seremos mais felizes. Isso é uma forma de cultura. As pessoas estão revertendo essa noção. Pelo contrário: o que é importante em suas vidas não pode ser comprado, na maioria dos casos. Mas elas não têm mais escolha porque já foram capturadas pelo sistema. O que acontece quando a máquina não funciona mais? As pessoas dizem “bem, eu sou mesmo burro. Estou o tempo todo correndo atrás de coisa nenhuma”.

Qual a importância dessa mudança cultural?
É fundamental, porque desencadeia uma crise de confiança nos dois maiores poderes do mundo: o sistema político e o financeiro. As pessoas não confiam mais no lugar onde depositam seu dinheiro, e não acreditam mais naqueles a quem delegam seu voto. É uma crise dramática de confiança – e se não há confiança, não há sociedade. O que nós não vamos ver é o colapso econômico per se, porque as sociedades não conseguem existir em um vácuo social. Se as instituições econômicas e financeiras não funcionam, as relações de poder produzem transformações favoráveis ao sistema financeiro, de forma que ele não entre em colapso. As pessoas é que entram em colapso em seu lugar.
A ideia é que os bancos vão ficar bem, nós não. Aí está a mudança cultural. E grande: uma completa descrença nas instituições políticas e financeiras. Algumas pessoas já começam a viver de modo diferente, conforme conseguem – ou porque desejam outras formas de vida, ou porque não têm escolha. Estou me referindo ao que observei em um dos meus últimos estudos sobre pessoas que decidiram não esperar pela revolução para começar a viver de outra maneira – o que resulta na expansão do que eu chamo de “práticas não-capitalistas”.
São práticas econômicas, mas que não são motivadas pelo lucro – redes de escambo, moedas sociais, cooperativas, autogestão, redes de agricultura, ajuda mútua, simplesmente pela vontade de estar junto, redes de serviços gratuitos para os outros, na expectativa de que outros também proverão você. Tudo isso existe e está se expandindo ao redor do mundo.
Na Catalunha, 97% das pessoas que você pesquisou estavam engajadas em atividades econômicas não-capitalistas.
Bem, estão entre 30-40 mil os que são engajados quase completamente em modos alternativos de vida. Eu distinguo pessoas que organizam a vida conscientemente através de valores alternativos de pessoas que têm vida normal, mas que têm costumes que podem ser vistos como diferentes, em muitos aspectos. Por exemplo, durante a crise, um terço das famílias de Barcelona emprestaram dinheiro, sem juros, para pessoas que não são de sua família.

O que é a Sociedade em Rede?
É uma sociedade em que as atividades principais nas quais as pessoas estão engajadas são organizadas fundamentalmente em rede, ao invés de em estruturas verticais. O que faz a diferença são as tecnologias de rede. Uma coisa é estar constantemente interagindo com pessoas na velocidade da luz, outra é simplesmente ter uma rede de amigos e pessoas. Existe todo tipo de rede, mas a conexão entre todas elas – sejam os mercados financeiros, a política, a cultura, a mídia, as comunicações etc –, é nova por causa das tecnologias digitais.
Então, nós vivemos numa Sociedade em Rede. Podemos deixar de viver nela?
Podemos regredir a uma sociedade pré-eletricidade? Seria a mesma coisa. Não, não podemos. Apesar de agora muitas pessoas estarem dizendo “por que não começamos de novo?” É um grande movimento, conhecido como “decrescimento”. Algumas pessoas querem tentar novas formas de organização comunitária etc.
No entanto, o interessante é que, para as pessoas se organizarem e debaterem e se mobilizarem pelo decrescimento e o comunitarismo, elas têm que usar a internet. Não vivemos numa cultura de realidade virtual, mas de real virtualidade, porque nossa virtualidade – significando as redes da internet – é parte fundamental da nossa realidade. Todos os estudos mostram que as pessoas que são mais sociáveis na internet são também mais sociáveis pessoalmente.

domingo, 18 de novembro de 2012

A INTOLERÂNCIA DESAVERGONHADA: POR QUE A NOVA EXTREMA-DIREITA CRESCE?



  
Uma pesquisa realizada por Ana Paula Tostes, professora de Michigan State University, nos Estados Unidos, mapeou o crescimento de votos em partidos da nova extrema-direita em eleições nacionais em países membros da União Europeia. A tese da pesquisa é a de que consequências da política regional refletem na preferência do eleitor em eleições nacionais. Os votos nesses partidos na Europa ocidental estão fortemente associados ao fato de que esses partidos possuem uma agenda nacionalista forte, um posicionamento de resistência à expansão de direitos a imigrantes, à flexibilização de fronteiras e perda de soberania. Sendo assim, a pesquisadora argumenta que o "voto intolerante" em partidos políticos que suportam agendas não pluralistas não pode ser explicado apenas por motivações de política doméstica, como tem sido feito. A União Europeia e sua política de abertura de fronteiras e extensão de cidadania comum incomoda o eleitor da nova extrema-direita, inclusive quando ele vota em eleições locais. A nova ideologia de extrema-direita, que representa uma nova defesa de idéias autoritárias e de mudança de regras pluralistas e democráticas, tem procurado ganhar espaço e poder político dentro das próprias vias que a democracia oferece: pela representação. Enquanto a tradicional extrema-direita está relacionada ao fascismo, a nova extrema-direita representa uma nova clivagem política, fruto da "sociedade pós-industrial". O que torna curiosa esta nova ideologia de extrema-direita é que, defender a liberdade de imprensa, liberdade de opinião, bem como o fim da censura, faz parte da agenda deste grupo de preferências políticas e ideológicas que se contrap›e aos princípios democráticos de inclusão, pluralismo e diversidade. Em outras palavras, é por isso que assistimos as propagandas políticas de Le Pen, o mais tradicional e conhecido personagem desta tribo, defender fortemente o fim da censura. Os defensores da extrema direita querem defender a intolerância livremente.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

UMA ANÁLISE ACERCA DO HOMOSSEXUALISMO. A ARTE COMO FONTE E ELO DE COMPREENSÃO




Por que o cinema gay comercial está tão contaminado pelo amor romântico, com homens belos em tramas açucaradas?
 por Bruno Carmelo, editor do blog 
A situação anda complicada para o cinema gay nos cinemas recentemente. Por “cinema gay”, termo vago e contestável, entenda filmes que têm como foco central personagens homossexuais e/ou questões específicas aos indivíduos homossexuais. Em muitos casos, são filmes reservados ao gueto, que passam em cinemas específicos de grandes capitais.Nestes últimos anos, Verão em L.A., Shelter e Weekend passaram em circuito comercial, enquanto produções como The Love Patient, Deixe a Luz Acesa e eCupidpassaram em festivais gays, ou sessões gays de festivais de cinema. Em comum, os filmes acima têm uma abordagem plenamente idealizada do amor e do próprio indivíduo homossexual: estas seis histórias tratam de amores românticos entre jovens gays, todos belos, musculosos, brancos, sedutores, de classe média alta.
Seus conflitos são ligados apenas ao amor, figura fantasmática (“ele me ama, mas não podemos ficar juntos porque somos diferentes”, ou “eu o amo, mas ele não quer compromisso sério”, ou ainda “eu o amo, mas ele não me quer”). O relacionamento torna-se uma finalidade em si, neste mundo-bolha de pessoas bonitas e disponíveis, onde as mulheres servem apenas como mães, irmãs ou amigas dos protagonistas – já que a grande maioria dos “filmes gays” retrata a homossexualidade masculina.No final, todos estes produtos parecem o mesmo, que seja em qualidade cinematográfica ou em discurso. É interessante que o espectador gay possa se identificar com estes amores utópicos, que parecem extraídos de propagandas de margarina ou páginas de revista de moda. Um exemplo foi particularmente surpreendente: Deixe a Luz Acesa, premiado em vários festivais e recebido com críticas muito favoráveis. A fórmula é a mesma dos demais, mas com elementos dramáticos: um dos amantes é viciado em drogas (nunca se vê este homem usando o que quer que seja), o outro teme estar infectado com o HIV (mas é só um susto).

Filmes gays, mórbida semelhança. Acima: Weekend, Verão em L.A. e The Love Patient. Abaixo: eCupid, Shelter e Deixe a Luz Acesa
Se estes atores fossem trocados por Reese Whitherspoon e Gerard Butler, ou Hugh Grant e Julia Roberts, teríamos uma comédia romântica heterossexual qualquer, dessas que os críticos adoram detestar. Mas por serem dois homens, ou ocasionalmente duas mulheres, a proposta parece “subversiva”, “alternativa”. Como as garotinhas que sonham com o astro da revista teen, os diretores e produtores (muitas vezes gays) do cinema gay acham que os homens comuns precisam é sonhar com os galãs das fotos acima.
O público acaba sendo infantilizado, reduzido ao desejo sexual primário – supõe-se que uma produção com um amor realista, vivido por pessoas comuns, não seja vendável no mercado. Não é questão aqui de solucionar a dúvida da oferta e da procura (são os gays que querem ver estes filmes, ou são estes os únicos filmes oferecidos aos gays?), mas simplesmente de dizer que este sistema se retro-alimenta. Ele não indica nenhuma tendência de se transformar, até porque são estes filmes idealizados que acabam sendo selecionados nos maiores festivais e recompensados pelos prêmios gays, como o Teddy.
Logicamente, nem todos os filmes seguem a estética publicitária do amor perfeito.Kaboom retratava de maneira despojada a plurissexualidade adolescente, Fucking Different XXX ousou mostrar o sexo sem pudores, e sem padrões, Tomboy explorou a identidade de gênero na infância, com grande naturalidade. Mas a razão pela qual falamos destas produções é justamente por constituírem exceções.Ora, chegou o momento de um verdadeiro debate ser feito nos festivais, e de os gays se manifestarem quanto ao conteúdo que consomem. Não basta o festival selecionar um filme pela simples temática, independentemente da qualidade que ela propõe. Em outras palavras, não basta um filme ser gay para ele ser interessante, ele precisa propor uma maneira diferente de retratar o amor, as pessoas. A comunidade homossexual não pode se limitar a copiar os códigos do amor idealizado heterossexual, ele precisa achar sua estética e sua cultura próprias.
Em novembro chega a São Paulo e ao Rio de Janeiro o Festival Mix Brasil, com mais de cem filmes sobre o gênero. Vamos torcer para os curadores terem selecionado, e que o público prestigie, apenas as produções que propõem um olhar diferente, questionador, provocador e reflexivo sobre a cultura gay. Vamos torcer para que os filmes parem de ser histórias conformistas e apolíticas, para um público alienado, querendo sonhar com o homem ideal e o relacionamento perfeito.